NEGÓCIOS
Brasil registra recorde de inadimplência e endividamento atinge 82% das famílias
CNDL e SPC Brasil apontam 75,08 milhões de consumidores negativados, enquanto a Serasa estima 83,9 milhões; levantamento da CNC mostra que o endividamento também chegou ao maior nível da série histórica.
O Brasil chegou a um novo recorde de inadimplência em julho de 2026. Segundo a CNDL e o SPC Brasil, 75,08 milhões de consumidores estavam com contas atrasadas, o equivalente a 44,75% da população adulta. Paralelamente, a CNC constatou que 82% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida, maior percentual de sua série histórica.
- 75,08 milhões de consumidores estavam negativados na base da CNDL e do SPC Brasil;
- A Serasa estimou 83,9 milhões de inadimplentes e R$ 586,4 bilhões em débitos;
- O endividamento atingiu 82% das famílias, segundo levantamento da CNC.
Inadimplência alcança o maior patamar da série
O Indicador de Inadimplência da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil mostrou crescimento de 0,47% no número de consumidores negativados entre junho e julho. Na comparação anual, a quantidade de dívidas atrasadas avançou 14,18%.
Cada consumidor inadimplente devia, em média, R$ 5.205,30 e possuía pendências com aproximadamente 2,34 empresas credoras. Quase 29% dos devedores tinham contas de até R$ 500. O percentual chegava a 41,16% quando consideradas dívidas de até R$ 1 mil.
Outro sinal preocupante é o crescimento das dívidas antigas. As inclusões de consumidores com pendências atrasadas havia quatro ou cinco anos aumentaram 38,97% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Serasa calcula 83,9 milhões de inadimplentes
O Mapa da Inadimplência da Serasa apresentou um número ainda maior. De acordo com o levantamento, o país terminou julho com 83,9 milhões de consumidores inadimplentes, alta de 0,23% em relação a junho.
A base da Serasa contabilizou 348,3 milhões de dívidas abertas, que somavam aproximadamente R$ 586,4 bilhões. Isso representa mais de quatro débitos por consumidor negativado.
Endividamento chega a 82% das famílias
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada pela CNC, mostrou que 82% das famílias tinham alguma dívida em julho. Foi o sexto recorde mensal consecutivo da pesquisa.
Em junho, o percentual estava em 81,6%. Em julho de 2025, era de 78,5%. A pesquisa considera compromissos como cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito pessoal, consignado e financiamentos de veículos ou imóveis.
As famílias destinavam, em média, 29,5% da renda ao pagamento de dívidas, com prazo médio de comprometimento de 7,2 meses. Em 19% dos lares, mais da metade da renda mensal estava comprometida.
Endividamento não é o mesmo que inadimplência
Uma família endividada não está necessariamente com o nome negativado. Quem compra um produto parcelado, usa o cartão de crédito ou paga um financiamento é considerado endividado, mesmo quando todas as prestações estão em dia.
A inadimplência ocorre quando uma conta vence e não é paga. Já a negativação acontece quando essa dívida é comunicada a um cadastro de proteção ao crédito.
Na pesquisa da CNC, a proporção de famílias com contas atrasadas recuou levemente de 29,9% para 29,8% entre junho e julho. Apesar da pequena queda, o indicador significa que quase três em cada dez famílias enfrentam atrasos.
Cartão de crédito lidera o endividamento
O cartão de crédito estava presente nas dívidas de 85,3% das famílias endividadas. Em seguida apareciam carnês de lojas, com 16,1%, crédito pessoal, com 13%, financiamento imobiliário, com 9,6%, e financiamento de veículos, com 9%.
O cartão pode facilitar compras e pagamentos, mas transforma-se em um problema quando o consumidor não consegue quitar integralmente a fatura. O rotativo e o parcelamento da fatura normalmente apresentam juros elevados e podem fazer uma dívida crescer rapidamente.
Famílias de menor renda são as mais atingidas
O peso das dívidas não é igual para todas as faixas de renda. Entre as famílias que recebiam até três salários mínimos, 84,9% estavam endividadas e 38,5% tinham contas atrasadas.
Entre os lares com renda superior a dez salários mínimos, 72% possuíam dívidas e 15,1% apresentavam atrasos. A diferença demonstra que as famílias de menor renda possuem menos espaço no orçamento para enfrentar despesas inesperadas.
Contas básicas também ganharam participação no problema. Conforme a CNDL e o SPC Brasil, as pendências relacionadas a água e energia tiveram crescimento anual de 22%, enquanto os bancos concentravam 65,91% das dívidas registradas.
Mais da metade dos trabalhadores termina o mês sem dinheiro
Uma pesquisa de saúde financeira da Serasa Experian acrescenta outra dimensão ao problema. O levantamento mostrou que 53% dos trabalhadores chegam ao fim do mês sem recursos suficientes para cobrir todas as despesas.
Entre os participantes com dificuldade financeira, a alimentação foi citada por 78% como um dos principais pesos no orçamento. Água, energia e gás foram mencionados por 72%, enquanto financiamentos apareceram em 44% das respostas.
A pesquisa ouviu 1.008 profissionais dos setores público e privado, incluindo trabalhadores com carteira assinada e prestadores de serviços, entre os dias 12 e 30 de junho.
Por que os brasileiros estão tão endividados?
O avanço das dívidas resulta de uma combinação de fatores. Os juros permanecem elevados, o crédito ficou mais caro e uma parcela crescente da renda está sendo consumida por alimentação, moradia, energia, transporte e financiamentos.
A taxa Selic foi reduzida recentemente de 14,25% para 14% ao ano, mas continua em nível restritivo. A queda dos juros básicos pode ajudar no custo de novos empréstimos, porém seus efeitos não aparecem imediatamente nos contratos já existentes.
Quando não existe reserva financeira, uma despesa inesperada pode levar a família ao cartão, cheque especial ou empréstimo pessoal. Caso o orçamento continue apertado, uma dívida é utilizada para pagar outra, criando um ciclo difícil de interromper.
Endividamento elevado também prejudica a economia
O problema não fica restrito às famílias. Consumidores com grande parcela da renda comprometida tendem a reduzir compras, adiar projetos e evitar novos financiamentos. Isso afeta o comércio, a indústria e as empresas prestadoras de serviços.
A inadimplência também leva bancos e financeiras a restringirem a concessão de crédito ou aumentarem os juros para compensar o risco. O resultado pode ser uma desaceleração adicional do consumo e dos investimentos.
Renegociação cresce, mas não resolve todo o problema
Entre maio e julho de 2026, mais de 14 milhões de acordos foram realizados pelo Serasa Limpa Nome, crescimento de 41% em relação ao mesmo período de 2025. Mais de sete milhões de consumidores negociaram débitos pela plataforma.
Renegociar pode diminuir juros, ampliar prazos e permitir a retirada da negativação, mas o consumidor precisa verificar se a parcela realmente cabe no orçamento. Um acordo que não pode ser cumprido apenas adia o problema e pode provocar uma nova negativação.
O que fazer para começar a sair das dívidas
- Liste todas as dívidas, valores, parcelas, juros e datas de vencimento;
- Priorize despesas essenciais, como alimentação, moradia, água e energia;
- Consulte gratuitamente seu CPF e confirme quais débitos estão registrados;
- Procure diretamente o credor e solicite uma proposta por escrito;
- Compare o valor total do acordo, e não somente o tamanho da parcela;
- Evite contrair um empréstimo caro para pagar uma dívida mais barata;
- Desconfie de links, boletos e mensagens enviados por canais não oficiais.
Quando a empresa não oferece atendimento adequado ou cobra um débito desconhecido, o consumidor pode procurar o Procon, registrar uma reclamação no Consumidor.gov.br ou utilizar a ouvidoria da instituição financeira.
Fontes consultadas
- CNDL e SPC Brasil — Indicador de Inadimplência de julho de 2026
- CNC — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor
- Agência Brasil — endividamento das famílias chega a 82%
- Jornal do Commercio — Mapa da Inadimplência da Serasa
- Folha de S.Paulo — Pesquisa de Saúde Financeira dos Trabalhadores
Nota editorial: Os números da CNDL/SPC Brasil, da Serasa e da CNC não devem ser comparados diretamente ou somados. Cada instituição utiliza metodologia, universo pesquisado e banco de dados próprios. Endividamento, atraso, inadimplência e negativação também representam situações diferentes.
Imagem: fotografia de BigBruiser disponível no Wikimedia Commons , licenciada sob Creative Commons BY-SA 4.0 .