Sophie Cunningham defende categoria feminina no esporte e reacende debate sobre atletas trans
Jogadora do Indiana Fever afirma que mulheres não deveriam competir contra atletas do sexo masculino; posição destaca a importância da proteção esportiva feminina, mas alternativas de inclusão ainda dividem entidades e especialistas.
A jogadora de basquete Sophie Cunningham, do Indiana Fever, reafirmou em julho de 2026 que atletas femininas não deveriam ser obrigadas a competir contra pessoas do sexo masculino na categoria feminina. A declaração, apresentada pela atleta como uma defesa da justiça esportiva e das oportunidades de meninas e mulheres, provocou apoio, críticas e novos protestos nos Estados Unidos.
- Cunningham defende que a categoria feminina seja reservada a atletas do sexo feminino.
- Separar categorias por sexo pode preservar oportunidades e equilíbrio competitivo em modalidades como o basquete.
- Categoria aberta, participação no masculino ou divisão adicional são alternativas discutidas, mas nenhuma oferece solução simples para todos os níveis.
Nota sobre a imagem: a fotografia registra uma partida de 2019 e não está relacionada diretamente às declarações feitas por Sophie Cunningham em 2026.
O que Sophie Cunningham disse sobre mulheres trans no esporte?
Em entrevista publicada pela ESPN em , Cunningham afirmou que meninas e mulheres não deveriam precisar competir contra “homens biológicos”. Ela classificou sua posição como uma questão de bom senso e disse que pretende continuar defendendo o esporte feminino.
A jogadora também rejeitou a interpretação de que sua manifestação representaria ódio contra pessoas trans. Segundo Cunningham, sua intenção é proteger meninas, preservar as oportunidades esportivas femininas e, ao mesmo tempo, tratar todas as pessoas com respeito.
“Só quero proteger as meninas, e acho que mulheres não deveriam ter de competir contra homens biológicos.”
Sophie Cunningham, em declaração reproduzida pela ESPN
A expressão utilizada por Cunningham é comum no debate político norte-americano, mas exige precisão. Mulheres trans são pessoas que se identificam e vivem como mulheres, embora tenham sido registradas como do sexo masculino ao nascer. Reconhecer essa identidade social não obriga entidades esportivas a ignorar o sexo ou os efeitos da puberdade masculina ao estabelecer categorias competitivas.
Por que a manifestação da atleta pode ser considerada positiva?
A participação de atletas femininas na elaboração das regras é positiva porque são elas que disputam vagas, minutos em quadra, bolsas, contratos, premiações e títulos dentro da categoria protegida. Suas preocupações não devem ser descartadas como preconceito antes que os argumentos sejam examinados.
O esporte feminino foi criado porque uma categoria única ou aberta reduziria drasticamente a presença de mulheres nos níveis mais altos de várias modalidades. Em esportes dependentes de altura, força, potência, velocidade e capacidade de salto, como o basquete, diferenças físicas médias entre os sexos influenciam diretamente o desempenho.
Dar espaço para Cunningham e para atletas que discordam dela também é saudável. O avanço está em permitir um debate objetivo sobre regras, evidências e consequências, sem ameaças, insultos ou tentativas de silenciar qualquer lado.
A posição da jogadora chama atenção para uma questão legítima: inclusão social e justiça competitiva não são exatamente o mesmo problema. Uma política pode respeitar pessoas trans fora das quadras e, ao mesmo tempo, estabelecer critérios esportivos baseados no sexo quando isso for necessário para proteger uma categoria.
Por que homens e mulheres não costumam competir juntos no basquete?
O basquete é uma modalidade de contato limitado, mas envolve disputas corporais, acelerações, mudanças de direção, saltos, bloqueios e ocupação física de espaço. Altura, massa corporal, força, envergadura e potência podem produzir vantagens importantes.
Uma revisão científica publicada em 2023 sobre diferenças sexuais no desempenho esportivo concluiu que homens adultos são, em média, mais fortes, rápidos e potentes do que mulheres com idade e treinamento comparáveis. Isso não significa que todo homem seja superior a toda mulher, mas o esporte de alto rendimento organiza categorias com base em diferenças populacionais, e não em exceções individuais.
| Aspecto | Consequência esportiva |
|---|---|
| Força e potência médias | Influenciam saltos, arrancadas, arremessos, rebotes e disputas de espaço. |
| Altura e envergadura | Afetam alcance defensivo, bloqueios, rebotes e finalizações próximas à cesta. |
| Massa muscular e estrutura corporal | Podem alterar a capacidade de contato, aceleração e resistência física. |
| Oportunidades limitadas | Vagas, bolsas, contratos e posições em equipes são recursos competitivos escassos. |
Por esse motivo, simplesmente misturar atletas masculinos e femininos em uma única categoria competitiva de alto nível não produziria igualdade. Em muitas modalidades, a consequência previsível seria a redução da participação feminina nas equipes principais.
Tratamento hormonal elimina todas as diferenças?
O tratamento hormonal pode reduzir testosterona, hemoglobina, massa magra e força em mulheres trans. Entretanto, os resultados variam conforme a idade de início, a passagem ou não pela puberdade masculina, o tempo de tratamento e a característica esportiva analisada.
Um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine em 2024 encontrou resultados mistos: atletas trans apresentaram vantagens em algumas medições e desempenho semelhante ou inferior em outras. Os próprios autores alertaram que testes de laboratório não equivalem automaticamente ao rendimento em todas as modalidades.
Outra pesquisa que acompanhou integrantes das Forças Armadas dos Estados Unidos verificou redução de desempenho após o início do tratamento hormonal, mas encontrou diferenças persistentes em alguns testes depois de dois anos. O estudo não avaliou jogadoras profissionais de basquete e, portanto, não resolve sozinho a discussão na WNBA.
A conclusão responsável é que não existe uma única resposta científica aplicável a todos os esportes, idades e níveis competitivos. Também seria incorreto afirmar que a transição hormonal nunca altera o desempenho ou, no extremo oposto, que elimina necessariamente todas as vantagens associadas à puberdade masculina.
Atletas trans deveriam competir na categoria masculina?
Uma das alternativas é permitir que qualquer atleta participe da categoria masculina, transformando-a, na prática, em uma categoria aberta, enquanto a feminina permanece reservada ao sexo feminino.
A política adotada pela Associação Nacional de Atletismo Universitário dos Estados Unidos (NCAA) desde fevereiro de 2025 segue parcialmente esse modelo. Qualquer atleta que cumpra os demais requisitos pode participar de uma equipe masculina, independentemente do sexo registrado ao nascer ou da identidade de gênero. Já a competição feminina é limitada a estudantes registradas como do sexo feminino ao nascer.
Esse sistema protege a categoria feminina sem proibir completamente a participação esportiva. Contudo, pode colocar mulheres trans em uma categoria que não corresponde à identidade delas e na qual possivelmente enfrentariam desvantagem depois do tratamento hormonal.
Portanto, dizer apenas que “devem competir no masculino” não resolve todas as dificuldades. É uma opção regulatória objetiva e aplicável, mas possui consequências esportivas e pessoais que precisam ser reconhecidas.
Uma terceira categoria para atletas trans seria melhor?
A criação de uma divisão específica para atletas trans é outra proposta. Em teoria, ela poderia preservar a categoria feminina baseada no sexo e oferecer um espaço competitivo alinhado à realidade desses participantes.
Na prática, a proposta enfrenta obstáculos importantes:
- o número de atletas trans pode ser insuficiente para formar equipes, campeonatos e calendários regulares;
- seriam necessários critérios para mulheres trans, homens trans e pessoas não binárias com características muito diferentes;
- escolas e ligas menores dificilmente teriam participantes suficientes em cada idade e modalidade;
- uma divisão obrigatoriamente identificada como “trans” poderia expor menores de idade e aumentar a estigmatização;
- seria necessário decidir como funcionariam bolsas, premiações, rankings e acesso a competições internacionais.
Por isso, uma terceira categoria pode funcionar em eventos ou circuitos com participantes suficientes, mas ainda não pode ser apresentada como solução universal ou comprovadamente melhor para todos.
Um modelo mais viável em determinadas competições seria manter uma categoria feminina reservada ao sexo feminino e criar uma categoria aberta a qualquer participante. Essa alternativa evita exigir que uma pessoa revele publicamente sua identidade trans para poder competir.
Quais modelos podem equilibrar proteção e inclusão?
| Modelo | Possível benefício | Principal dificuldade |
|---|---|---|
| Feminina por sexo e masculina aberta | Protege vagas femininas e mantém uma categoria acessível a todos. | Mulheres trans podem considerar inadequada a participação na equipe masculina. |
| Feminina por sexo e categoria aberta | Usa linguagem neutra e permite participação ampla. | Exige competições, equipes e premiações suficientes na divisão aberta. |
| Terceira categoria trans | Cria espaço específico sem modificar a categoria feminina. | Poucos participantes e risco de exposição ou estigmatização. |
| Critérios por modalidade | Considera contato, distância, potência e características próprias de cada esporte. | Produz regras complexas e pode gerar decisões inconsistentes. |
| Avaliação individual | Considera histórico clínico e desenvolvimento físico de cada atleta. | Pode invadir a privacidade e gerar critérios subjetivos ou difíceis de fiscalizar. |
Para o esporte recreativo, escolar e infantil, inclusão, convivência e acesso à atividade física podem receber peso maior. No alto rendimento, em que cada vaga, resultado e contrato possui valor concreto, os critérios de igualdade competitiva tendem a ser mais rigorosos.
Qual é a regra atual nos Estados Unidos?
Não existe uma única regra para todas as modalidades norte-americanas. Federações, ligas profissionais, escolas, universidades e estados podem adotar critérios diferentes.
Em 30 de junho de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, nos casos envolvendo West Virginia e Idaho, que o Título IX permite a manutenção de equipes escolares masculinas e femininas definidas pelo sexo biológico. A Corte também validou, nos casos analisados, as leis estaduais que restringem a participação de atletas do sexo masculino em equipes femininas.
A decisão não obriga automaticamente todas as entidades privadas a adotarem a mesma política, mas reforçou juridicamente a possibilidade de reservar categorias escolares femininas a pessoas do sexo feminino.
Na NCAA, a política vigente desde 6 de fevereiro de 2025 não permite que estudantes registrados como do sexo masculino ao nascer disputem competições femininas. Essas pessoas podem treinar com equipes femininas em determinadas condições, mas não competir por elas nem receber bolsas destinadas exclusivamente a mulheres.
A WNBA, por sua vez, declara em seu acordo coletivo que somente mulheres são elegíveis para jogar na liga, mas a formulação pública não esclarece detalhadamente como a entidade define a elegibilidade de atletas trans. Até o fechamento desta matéria, a liga não havia anunciado uma mudança de regra motivada pelas declarações de Cunningham.
Protestos e confronto ampliaram a repercussão
A controvérsia ganhou novo capítulo durante uma partida entre Indiana Fever e Seattle Storm, realizada em Seattle em . Grupos favoráveis à posição de Cunningham e manifestantes defensores da inclusão trans realizaram atos nos arredores da arena.
Duas adolescentes levaram um cartaz agradecendo à atleta por “defender as meninas”. Segundo relatos e vídeos divulgados posteriormente, elas foram confrontadas com palavras ofensivas pela coproprietária minoritária do Seattle Storm, Celeste Keaton.
A WNBA aplicou uma multa de valor não divulgado e proibiu Keaton de comparecer aos cinco jogos seguintes do Storm em casa. O clube pediu desculpas e afirmou que discordâncias não justificam tratamento desrespeitoso contra torcedores.
Cunningham classificou o episódio como constrangedor, apoiou as adolescentes e voltou a defender que pessoas com opiniões diferentes sejam tratadas com respeito. Esse ponto é relevante: nenhum lado do debate deve usar sua posição sobre regras esportivas para humilhar atletas, torcedores ou pessoas trans.
Quem é Sophie Cunningham?
Sophie Elizabeth Cunningham nasceu em 16 de agosto de 1996, em Columbia, no estado norte-americano do Missouri. A atleta de 1,85 metro atua como armadora e ala.
Ela jogou basquete universitário pela Universidade do Missouri entre 2015 e 2019. Foi escolhida pelo Phoenix Mercury na 13ª posição geral do draft da WNBA de 2019 e permaneceu na equipe até ser negociada com o Indiana Fever em 2025.
Cunningham se tornou conhecida pelo estilo físico, pela intensidade defensiva e pela disposição de proteger companheiras de equipe. Em abril de 2026, renovou contrato com o Indiana Fever.
Perguntas frequentes
O que Sophie Cunningham defende?
Ela defende que meninas e mulheres não sejam obrigadas a competir contra atletas do sexo masculino na categoria feminina. Cunningham afirma que sua posição busca proteger oportunidades esportivas e não representa ódio contra pessoas trans.
Mulheres trans são homens?
Não em termos de identidade de gênero: mulheres trans se identificam e vivem como mulheres. No esporte, entretanto, algumas entidades consideram o sexo registrado ao nascer e os efeitos da puberdade para definir elegibilidade competitiva.
Por que existe uma categoria feminina?
Ela existe para compensar diferenças físicas médias entre os sexos e garantir que mulheres tenham oportunidades reais de competir, conquistar vagas, bolsas, premiações e contratos.
Mulheres e homens podem jogar basquete juntos?
Sim, em atividades recreativas, treinamentos e competições mistas organizadas para essa finalidade. O problema surge quando uma categoria feminina de alto rendimento deixa de cumprir sua função de proteção competitiva.
A solução é colocar atletas trans na categoria masculina?
Essa é uma alternativa adotada por algumas organizações, especialmente quando a categoria masculina funciona como aberta. Ela protege a divisão feminina, mas não elimina as dificuldades enfrentadas por atletas trans.
Uma categoria exclusiva para trans seria possível?
Sim, principalmente em eventos com participantes suficientes. Contudo, formar equipes e campeonatos regulares seria difícil em muitos locais, e uma divisão obrigatoriamente identificada como trans poderia gerar exposição e estigmatização.
Qual alternativa parece mais objetiva?
Uma possibilidade é manter a categoria feminina baseada no sexo e transformar a outra divisão em categoria aberta. A aplicação precisa considerar a modalidade, a idade, o nível competitivo, a privacidade e a quantidade de participantes.
Criticar a participação de mulheres trans é transfobia?
Não necessariamente. Questionar regras esportivas com argumentos sobre desempenho, segurança e oportunidades é legítimo. Ataques pessoais, humilhação, negação deliberada da dignidade ou hostilidade contra pessoas trans são outra coisa e não contribuem para uma política justa.
Fontes consultadas
- ESPN — entrevista em que Sophie Cunningham explica sua posição sobre a categoria feminina
- WNBA — perfil oficial, posição e estatísticas de Sophie Cunningham
- Indiana Fever — renovação do contrato e histórico profissional da jogadora
- NCAA — política vigente para participação de atletas trans
- Suprema Corte dos Estados Unidos — decisão de 30 de junho de 2026 sobre categorias esportivas escolares
- PubMed — revisão sobre a base biológica das diferenças sexuais no desempenho esportivo
- PubMed — estudo sobre tratamento hormonal e desempenho físico de pessoas trans
- British Journal of Sports Medicine — comparação de força, potência e capacidade aeróbica entre atletas trans e cisgênero
- Comitê Olímpico Internacional — estrutura sobre justiça, inclusão e não discriminação
- Wikimedia Commons — autoria e licença da fotografia de Sophie Cunningham
Esta matéria foi apurada em 30 de julho de 2026. O texto diferencia identidade de gênero, sexo e critérios de elegibilidade esportiva. A defesa de uma categoria feminina baseada no sexo é apresentada como posição legítima e potencialmente positiva para proteger oportunidades de mulheres, sem transformar pessoas trans em alvo de hostilidade. As evidências científicas ainda não permitem uma regra única para todas as modalidades, idades e níveis. A categoria aberta e uma divisão adicional são propostas regulatórias, não soluções universalmente adotadas ou comprovadas como melhores em todas as situações.