PortosRio e UFRJ: investigação aponta 305 bolsistas com vínculos políticos em convênio de R$ 35 milhões
Levantamento do UOL encontrou candidatos, cabos eleitorais, parentes de políticos, ex-servidores e dirigentes partidários entre mais da metade dos 544 bolsistas analisados; instituições negam irregularidades e defendem a legalidade do projeto.
Uma investigação publicada pelo UOL em apontou que 305 dos 544 bolsistas analisados em um convênio de R$ 35 milhões entre a estatal PortosRio e a Universidade Federal do Rio de Janeiro possuem vínculos com a classe política. O grupo recebeu R$ 3,3 milhões entre janeiro e março, segundo a apuração, mas a existência de ligação política não prova, isoladamente, desvio ou ilegalidade.
- Os 305 nomes representam aproximadamente 56% dos 544 bolsistas analisados pelo UOL.
- O levantamento encontrou candidatos, cabos eleitorais, parentes de políticos, ex-funcionários públicos, dirigentes partidários e aliados distribuídos por pelo menos 48 municípios do Rio.
- PortosRio e UFRJ afirmam que o convênio possui finalidade técnica, científica e educacional, com controle de frequência, relatórios e prestação de contas.
O que a investigação do UOL revelou?
O UOL informou ter obtido uma folha de pagamentos sigilosa no valor de R$ 8,9 milhões. Dentro desse conjunto, a reportagem analisou 544 pessoas que receberam R$ 5,6 milhões da primeira parcela do convênio, entre janeiro e março de 2026.
O cruzamento encontrou 305 pessoas com algum tipo de vínculo político. Segundo o levantamento, a UFRJ destinou R$ 3,3 milhões a esse grupo. Os vínculos identificados incluem candidaturas, prestação de serviços eleitorais, filiação ou direção partidária, atuação em campanhas, parentesco com políticos e passagens por administrações municipais.
| Valor total do convênio | R$ 35 milhões |
|---|---|
| Folha de pagamentos obtida pelo UOL | R$ 8,9 milhões |
| Bolsistas analisados | 544 pessoas |
| Bolsistas com vínculos políticos identificados | 305 pessoas, aproximadamente 56% |
| Valor pago aos 305 nomes | R$ 3,3 milhões |
| Outros grupos na primeira parcela | 33 acadêmicos, duas empresas, uma fundação ligada à UFRJ e 147 pessoas sem informações suficientes para classificação |
Como os vínculos políticos foram identificados?
A reportagem cruzou nomes e CPFs dos bolsistas com registros de candidatos e prestadores de serviços eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral nas duas últimas eleições. Também consultou Portal da Transparência, Diários Oficiais, dados da Prefeitura de Belford Roxo, processos judiciais e publicações em redes sociais.
Esse método permite identificar relações documentadas, mas não demonstra sozinho que uma bolsa foi concedida em troca de trabalho político. Para provar favorecimento ilegal seria necessário examinar critérios de seleção, atividades realizadas, frequência, entregas, interferência de agentes públicos e eventual desvio de finalidade.
Os bolsistas eram todos aliados do PT?
Não. A rede descrita pela investigação possui forte ligação com o grupo do ex-prefeito de Belford Roxo Wagner Carneiro, conhecido como Waguinho, filiado ao Republicanos e aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Também aparecem pessoas ligadas a administrações e políticos do PT, além de nomes relacionados a outros grupos. Portanto, é correto afirmar que o convênio alcançou aliados do governo federal e pessoas conectadas à classe política, mas seria impreciso dizer que todos os 305 eram filiados ou diretamente subordinados ao PT.
O UOL informou ainda que os pagamentos chegaram a pessoas politicamente ligadas em pelo menos 48 dos 92 municípios do estado do Rio de Janeiro.
Qual é a relação de Waguinho com a PortosRio?
Waguinho comandou Belford Roxo entre 2017 e 2024, apoiou Lula na eleição de 2022 e é pré-candidato ao Senado em 2026. Segundo a reportagem, a estatal passou a reunir ex-integrantes da administração municipal e aliados do ex-prefeito.
O levantamento afirma que pelo menos 37 ex-funcionários da Prefeitura de Belford Roxo ou aliados ocuparam cargos na empresa. Waguinho trabalhou como assessor de Relações Institucionais da PortosRio entre setembro de 2025 e março de 2026, mas não ocupava mais o posto quando a reportagem foi publicada.
Waguinho negou ter indicado bolsistas ou interferido na seleção. O Palácio do Planalto também rejeitou a afirmação de que Lula teria entregue ao ex-prefeito poder para influenciar politicamente a estatal.
Quais casos foram destacados pela reportagem?
Entre os exemplos apresentados estão familiares de políticos e de ocupantes de cargos na estatal, candidatos das últimas eleições, prestadores de campanhas e ex-integrantes de prefeituras.
- A mulher, a filha e um sobrinho de Leandro do Waguinho teriam recebido R$ 41 mil;
- cinco familiares de um assessor de Relações Institucionais da PortosRio teriam recebido R$ 150 mil;
- a mulher e um filho de um gerente da estatal teriam recebido, juntos, R$ 22,5 mil;
- um ex-prefeito, sua mulher e dois filhos teriam recebido R$ 84 mil;
- candidatos e pessoas que atuaram em campanhas teriam recebido bolsas entre os pagamentos analisados.
Os valores e relações acima foram divulgados pela investigação do UOL. Parte dos citados não respondeu; outros negaram interferência, indicação ou participação na administração do convênio.
O que previa o convênio de R$ 35 milhões?
O acordo foi assinado em dezembro de 2025 pela PortosRio, UFRJ, Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais da Coppe e Fundação Universitária José Bonifácio, responsável pela gestão administrativa e financeira.
O documento oficial estabelece assistência técnica e científica especializada e execução do Programa Capacita Portos. O plano inclui engenharia portuária, logística, acessos aquaviários, gestão de ativos, tecnologia, conformidade ambiental, regulação, capacitação interna e integração com comunidades próximas aos portos.
Os R$ 35 milhões seriam desembolsados integralmente até setembro de 2026. A vigência inicial é de 12 meses, e o convênio exige conta bancária específica, registros contábeis, fiscalização e prestação de contas.
O acordo foi firmado sem licitação?
Sim, mas a ausência de licitação não torna o convênio automaticamente ilegal. O instrumento invoca dispositivos da Lei das Estatais que permitem cooperação com instituições de ensino e pesquisa em determinadas condições.
A questão central é saber se o objeto foi adequadamente justificado, se os preços e despesas são compatíveis, se a seleção respeitou impessoalidade e se os recursos foram utilizados exclusivamente nas atividades previstas.
Quem selecionava os bolsistas?
A UFRJ afirma que havia dois grupos diferentes:
- Apoio técnico e científico: pesquisadores e profissionais selecionados pela universidade para estudos, pareceres, projetos de engenharia, modelagem e monitoramento ambiental;
- Bolsistas de custeio do Capacita Portos: participantes indicados pela PortosRio para cursos online sobre setor portuário, sustentabilidade, relação porto-cidade e temas relacionados.
Segundo a universidade, os pagamentos do segundo grupo dependiam do registro de frequência e da realização de avaliações. A PortosRio, por outro lado, declarou que não celebrou contratos individuais com os participantes e que a gestão das bolsas cabia às instituições executoras.
O que as instituições dizem que foi realizado?
A PortosRio informou que o ambiente virtual possuía 438 alunos matriculados e ativos. A formação teria carga total de 165 horas, com seis disciplinas disponíveis e dois módulos concluídos.
Segundo a estatal, 191 participantes haviam concluído as avaliações finais do módulo introdutório, com média geral de 95,4%, e 143 alcançaram pontuação máxima.
Na frente técnica, a UFRJ citou monitoramento ambiental, dragagem de manutenção do Porto de Itaguaí, estudos hidrodinâmicos, resistência de píeres, canais de acesso e soluções de engenharia civil e ambiental.
A auditoria interna já havia apontado problemas?
Sim. Uma ata oficial da PortosRio mostra que o Comitê de Auditoria Estatutário tomou conhecimento, em 30 de abril, de uma nota técnica sobre a formalização e execução do convênio.
O documento registra que a auditoria encontrou “diversos achados relevantes” que exigiam esclarecimentos adicionais da Diretoria Executiva, sob risco de comprometer a continuidade regular do processo.
A PortosRio informou posteriormente que seus órgãos de governança suspenderam novos repasses enquanto aguardavam esclarecimentos e cumprimento de condicionantes. A segunda parcela, prevista para abril, foi paga depois que o convênio foi restabelecido em junho. A terceira está prevista para setembro.
Os achados da auditoria provam desvio?
Não. A ata confirma a existência de pontos considerados relevantes pela auditoria, mas não apresenta naquele trecho uma conclusão definitiva de fraude, desvio de recursos ou responsabilidade individual.
Ela demonstra que os controles internos identificaram riscos suficientes para exigir explicações e interromper temporariamente novos repasses. A comprovação de irregularidade depende do conteúdo integral da nota técnica, das respostas, dos documentos de execução e da análise dos órgãos competentes.
O que disse a PortosRio?
A estatal afirmou que o convênio tem natureza institucional e que não contratou individualmente os bolsistas. Disse ainda que não mantém cadastro de filiação ou atividade político-partidária e que não valida a metodologia nem as conclusões do levantamento do UOL.
A empresa sustenta que as atividades possuem planos, metas, relatórios, registros acadêmicos e mecanismos de controle. Também afirmou estar comprometida com transparência, impessoalidade e correta aplicação dos recursos.
O que disse a UFRJ?
A universidade declarou que o convênio segue a legislação, possui três eixos de trabalho e utiliza dois tipos de bolsa. Informou que participantes do Capacita Portos fazem cursos online e que frequência e avaliações são registradas antes da liberação dos pagamentos.
A UFRJ também afirmou que os bolsistas técnicos trabalham em projetos portuários e que o primeiro relatório de acompanhamento foi disponibilizado publicamente.
O que disseram os políticos citados?
Waguinho declarou que não integra atualmente os quadros da PortosRio, não possui competência administrativa sobre o convênio e nunca participou da indicação de bolsistas.
A deputada Daniela Carneiro afirmou que não indicou participantes e não possui ingerência sobre processos da estatal ou da universidade. Leandro do Waguinho também negou participação e disse que eventual presença de familiares decorreu de iniciativa individual.
O Palácio do Planalto declarou que as nomeações e a gestão das estatais seguem a legislação e os mecanismos de governança, e negou relação entre encontros políticos de Lula com Waguinho e a administração da PortosRio.
Há investigação formal de órgãos externos?
Até a atualização desta matéria, não foi localizado anúncio público de abertura de investigação específica pelo Ministério Público Federal, Tribunal de Contas da União, Controladoria-Geral da União ou Polícia Federal com base na reportagem.
Isso pode mudar. O convênio já está submetido a controles internos, prestação de contas e fiscalização, e as informações reveladas podem ser encaminhadas a órgãos externos por cidadãos, parlamentares, partidos ou pelas próprias instituições.
Ligação política torna uma bolsa ilegal?
Não por si só. Filiados, candidatos, parentes de políticos e pessoas que participaram de campanhas não perdem automaticamente o direito de estudar, pesquisar ou participar de projetos públicos.
O problema aparece quando o vínculo político substitui critérios técnicos, quando não existe processo impessoal, quando as atividades não são realizadas ou quando dinheiro público é usado para manter uma rede eleitoral.
| Informação | Situação |
|---|---|
| Existência do convênio de R$ 35 milhões | Confirmada pelo documento oficial |
| 305 dos 544 bolsistas analisados com vínculos políticos | Resultado da investigação e do cruzamento de bases feito pelo UOL |
| Indicação de participantes do Capacita Portos pela estatal | Confirmada pela UFRJ |
| Achados relevantes da auditoria interna | Confirmados em ata oficial |
| Atividades e cursos realizados | Relatados por PortosRio e UFRJ; documentação deve ser auditável |
| Uso do convênio como pagamento deliberado de cabos eleitorais | Alegação da investigação; exige apuração formal para responsabilização |
| Participação direta de Lula, Waguinho ou Daniela na seleção | Negada pelos citados e ainda não comprovada publicamente |
O que precisa ser esclarecido?
- Quais critérios foram utilizados para indicar cada participante do Capacita Portos;
- se houve edital público, divulgação ou oportunidade aberta às comunidades portuárias;
- qual foi a atividade, carga horária e resultado individual de cada bolsista;
- por que famílias inteiras e pessoas ligadas a ocupantes de cargos foram contempladas;
- quais achados constam integralmente na nota da Auditoria Interna;
- quais condicionantes permitiram restabelecer o convênio em junho;
- quanto já foi desembolsado, quanto falta pagar e quais produtos foram aceitos;
- se houve interferência político-eleitoral na seleção ou nos pagamentos;
- se os valores das bolsas eram compatíveis com cursos e atividades realizados.
Como acompanhar o uso do dinheiro público?
- Acesse a seção de convênios e transferências no site da PortosRio;
- consulte o convênio assinado, o plano de trabalho e os relatórios de acompanhamento;
- procure atas da Diretoria Executiva, Conselho de Administração e Comitê de Auditoria;
- use a Lei de Acesso à Informação para pedir critérios de seleção, listas e prestações de contas, respeitando dados pessoais protegidos;
- registre denúncia ou pedido de apuração pelo Fala.BR quando houver indícios documentados;
- diferencie parentesco ou filiação partidária de prova concreta de desvio.
Por que transparência é decisiva neste caso?
Programas públicos podem legitimamente capacitar moradores de áreas portuárias e contratar conhecimento universitário. Entretanto, quando mais da metade dos nomes analisados apresenta ligações políticas, a administração precisa demonstrar de forma clara como cada pessoa foi escolhida, o que realizou e qual benefício entregou.
Transparência protege o dinheiro público, os bolsistas que trabalharam corretamente, os pesquisadores e a própria universidade. Sem documentação acessível, suspeitas legítimas se misturam a acusações sem prova, prejudicando a apuração.
Perguntas frequentes
Quantos bolsistas tinham vínculos políticos?
O UOL identificou vínculos em 305 dos 544 bolsistas analisados, aproximadamente 56%.
Quanto os 305 bolsistas receberam?
Segundo a investigação, o grupo recebeu R$ 3,3 milhões entre janeiro e março de 2026.
Todos eram aliados do PT?
Não. Há pessoas ligadas ao grupo de Waguinho e a diferentes partidos, mas grande parte era do PT. Parte possuía relação indireta, como parentesco ou participação em campanhas.
O convênio foi firmado sem licitação?
Sim. As instituições afirmam que a legislação permite esse tipo de cooperação com universidade federal. A dispensa, sozinha, não prova irregularidade.
Qual era o objetivo do convênio?
Prestar assistência técnica e científica, desenvolver estudos portuários e executar cursos do Programa Capacita Portos.
A PortosRio escolheu os bolsistas?
A UFRJ afirma que os participantes de custeio do Capacita Portos foram indicados pela PortosRio, enquanto pesquisadores técnicos foram selecionados pela universidade.
A auditoria encontrou problemas?
Uma ata oficial registra “diversos achados relevantes” que exigiam esclarecimentos e poderiam comprometer a continuidade regular do processo.
Já está provado que houve desvio de dinheiro?
Não. A investigação revelou vínculos e situações que exigem apuração, mas responsabilização depende de análise formal de seleção, atividades, pagamentos e eventual interferência.
O convênio ainda está ativo?
Segundo a UFRJ, duas parcelas foram pagas, a última está prevista para setembro e as atividades seguem até dezembro de 2026.
Fontes consultadas
- UOL — investigação sobre os 544 bolsistas e vínculos políticos
- UOL — respostas integrais de PortosRio, UFRJ, Planalto e citados
- PortosRio — convênio assinado com UFRJ, IVIG/Coppe e FUJB
- PortosRio — ata que registra achados relevantes da Auditoria Interna
- PortosRio — página oficial de convênios e transferências
- PortosRio — Ouvidoria e acesso ao Fala.BR
- Wikimedia Commons — Porto do Rio sob licença CC BY-SA 4.0
- Wikimedia Commons — campus da UFRJ sob licença CC BY-SA 3.0
Fonte original: investigação de Julia Affonso publicada pelo UOL, com documentos oficiais e manifestações das partes.
Nota editorial: vínculos políticos, parentesco ou filiação partidária não constituem prova automática de ilegalidade. A reportagem distingue os fatos documentados, as conclusões do levantamento do UOL, as respostas dos citados e os pontos que ainda dependem de apuração. Também não classifica todos os 305 nomes como aliados diretos do PT, pois a lista inclui diferentes partidos e tipos de relação, mas em sua mrioria são do PT.
Nota sobre as imagens: não foram reproduzidas imagens protegidas da investigação do UOL. As fotografias do Porto do Rio e do campus da UFRJ possuem licenças Creative Commons verificadas e são meramente ilustrativas.