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Nesta matéria
  1. Marabraz realmente está enfrentando problemas?
  2. Quais outras empresas grandes estão renegociando dívidas?
  3. Empresas brasileiras atingiram recorde de inadimplência
  4. Pedidos de recuperação judicial também cresceram
  5. Como os juros altos prejudicam uma empresa?
  6. As famílias brasileiras também estão mais endividadas
  7. Endividamento e inadimplência não são a mesma coisa
  8. Como a dívida das famílias afeta as empresas?
  9. Então a economia brasileira está ruim?
  10. Problemas de gestão também precisam ser considerados
  11. Recuperação judicial significa falência?
  12. O que consumidores devem fazer?
  13. O que pode melhorar esse cenário?
  14. Fontes consultadas

NEGÓCIOS

Marabraz, Casas Bahia e outras grandes empresas em crise: por que o endividamento bate recordes no Brasil

Juros elevados, crédito caro, consumidores endividados e erros empresariais ajudam a explicar o avanço das recuperações judiciais; Marabraz confirma dívida de R$ 140 milhões.

A crise que atingiu as Casas Bahia não é um caso completamente isolado. Empresas conhecidas como Marabraz, Tok&Stok, Mobly, Pão de Açúcar, St. Marche e Raízen também precisaram recorrer à Justiça ou negociar diretamente com credores para reorganizar dívidas.

Principais informações:
  • A Marabraz pediu recuperação judicial com aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas;
  • Mais de 9 milhões de empresas brasileiras estavam inadimplentes em maio de 2026;
  • As dívidas empresariais negativadas alcançaram R$ 229,9 bilhões;
  • O endividamento atingiu o recorde de 82% das famílias brasileiras;
  • Apesar dos problemas, o país não está tecnicamente em recessão e o desemprego permanece baixo.

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Fachada de uma loja das Casas Bahia no Rio de Janeiro
Loja das Casas Bahia na Tijuca, no Rio de Janeiro. Foto: Junius/Wikimedia Commons , imagem liberada pelo autor para o domínio público.

Marabraz realmente está enfrentando problemas?

Sim. A rede de móveis Marabraz protocolou um pedido de recuperação judicial em 15 de agosto de 2026. O processo foi encaminhado à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Estado de São Paulo e envolve aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas.

A empresa atribuiu a deterioração financeira a fatores como juros elevados, endividamento, dificuldade para conseguir novas linhas de crédito e disputas societárias e familiares. Segundo a Marabraz, a recuperação judicial foi escolhida para reorganizar a operação, preservar empregos e manter o relacionamento com fornecedores e clientes.

A companhia afirma que suas lojas continuam funcionando. Portanto, recuperação judicial não significa que todas as unidades da Marabraz fecharam ou que a empresa decretou falência. As informações sobre o pedido foram publicadas pela Folha de S.Paulo .

Entretanto, os problemas não começaram agora. O Sindicato dos Comerciários de Jundiaí informou que a crise financeira e administrativa teria começado em 2024, provocando demissões, redução de unidades e atrasos no pagamento de salários, FGTS e outros benefícios.

De acordo com a União Geral dos Trabalhadores , funcionários relacionados a mais de 40 lojas teriam sido atingidos pelos cortes. Não foi localizada, porém, uma relação oficial e atualizada de todas as unidades que permanecem fechadas.

Quais outras empresas grandes estão renegociando dívidas?

Os casos mais recentes aparecem em diferentes setores. Embora todos envolvam dificuldades financeiras, as causas, os valores e o tipo de processo não são iguais.

Grandes empresas que enfrentaram reestruturações recentes
Empresa Procedimento Valor informado Situação
Raízen Recuperação extrajudicial R$ 64,7 bilhões Plano recebeu apoio de mais de 80% dos credores consultados
Grupo Casas Bahia Recuperação judicial R$ 17,3 bilhões Fechou 298 lojas e realizou demissões
Grupo Pão de Açúcar Recuperação extrajudicial R$ 4,5 bilhões Negociação direcionada principalmente aos credores financeiros
Grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly Recuperação judicial Mais de R$ 1 bilhão Processamento autorizado pela Justiça em junho de 2026
St. Marche Recuperação judicial Valor atual não revelado Recuperação anterior envolvia aproximadamente R$ 528 milhões
Marabraz Recuperação judicial R$ 140 milhões Pedido apresentado em agosto de 2026

A Raízen, empresa formada pela Cosan e pela Shell, realizou a maior recuperação extrajudicial já apresentada no Brasil. O plano envolve aproximadamente R$ 64,7 bilhões e prevê conversão de parte das dívidas em ações, novos títulos e aportes dos controladores. Os detalhes foram publicados pela Folha de S.Paulo .

O Grupo Pão de Açúcar também apresentou um plano extrajudicial para renegociar R$ 4,5 bilhões. Já o Grupo Toky, proprietário da Tok&Stok e da Mobly, entrou em recuperação judicial com dívida superior a R$ 1 bilhão.

No caso do supermercado St. Marche, a recuperação judicial acompanha um acordo de venda para o grupo chileno Cencosud. A empresa já havia realizado uma recuperação extrajudicial envolvendo R$ 528 milhões, mas voltou a enfrentar dificuldades de fluxo de caixa.

Empresas brasileiras atingiram recorde de inadimplência

Os problemas não estão restritos às grandes companhias. Em maio de 2026, o Brasil possuía mais de 9 milhões de empresas inadimplentes, mantendo o maior patamar da série histórica da Serasa Experian.

Juntas, essas empresas acumulavam R$ 229,9 bilhões em dívidas negativadas. Cada CNPJ inadimplente possuía, em média, quase sete contas em atraso e uma dívida aproximada de R$ 25,5 mil.

As micro e pequenas empresas representam a maior parte dos negócios negativados. Isso acontece porque pequenos empreendimentos normalmente possuem menos reservas, dependem mais do capital de giro e têm menor capacidade de negociar taxas e prazos com bancos.

Os dados completos podem ser consultados no Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian .

Pedidos de recuperação judicial também cresceram

Levantamento publicado em agosto mostra que os pedidos de recuperação judicial cresceram aproximadamente 66% entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026. Agronegócio, transporte, logística, serviços e varejo aparecem entre os setores mais pressionados.

O aumento não é provocado por uma única razão. Entre os principais fatores estão:

  • juros elevados durante um período prolongado;
  • crédito mais seletivo e caro;
  • crescimento da inadimplência dos clientes;
  • elevação dos custos operacionais;
  • queda ou desaceleração das vendas em alguns setores;
  • investimentos realizados com projeções excessivamente otimistas;
  • concorrência de grandes plataformas digitais e empresas estrangeiras;
  • problemas administrativos e decisões empresariais equivocadas.

Segundo informações reunidas pela Folha de S.Paulo , o custo de algumas operações de capital de giro, que estava abaixo de 11% ao ano em 2020, alcançou aproximadamente 23% em 2026.

Como os juros altos prejudicam uma empresa?

Uma empresa nem sempre paga imediatamente tudo o que compra. É comum adquirir mercadorias dos fornecedores, vender os produtos e pagar as obrigações posteriormente. Também é comum recorrer ao capital de giro para bancar estoques, salários, aluguel e despesas enquanto o dinheiro das vendas ainda não entrou.

Quando os juros sobem, renovar essas dívidas fica mais caro. Uma companhia que antes pagava R$ 10 milhões de juros pode passar a desembolsar uma quantia muito maior mesmo sem aumentar suas operações.

O problema se agrava quando as vendas não crescem na mesma velocidade. A empresa passa a usar uma parcela maior de sua receita para pagar juros, deixando menos dinheiro para fornecedores, salários, impostos, manutenção e novos investimentos.

Em 5 de agosto de 2026, o Banco Central reduziu a taxa Selic para 14% ao ano. Apesar da redução, a taxa permanece elevada e os efeitos de uma queda da Selic demoram para chegar aos empréstimos oferecidos às empresas e consumidores.

O comunicado oficial pode ser consultado no Banco Central do Brasil .

As famílias brasileiras também estão mais endividadas

Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida, maior proporção da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a Peic.

O levantamento considera cartão de crédito, carnês, cheque especial, empréstimos pessoais, financiamentos de veículos e prestações imobiliárias. Isso significa que nem todas essas famílias estão com contas atrasadas: muitas possuem parcelas que ainda estão sendo pagas normalmente.

A proporção de famílias com contas efetivamente atrasadas ficou em 29,8%. Em média, 29,5% da renda mensal dos endividados estava comprometida com pagamentos.

Os números foram divulgados pela Confederação Nacional do Comércio e repercutidos pela Agência Brasil .

Endividamento e inadimplência não são a mesma coisa

Uma pessoa que financiou um imóvel e está pagando as prestações em dia é considerada endividada, mas não inadimplente. A inadimplência começa quando uma conta vence e deixa de ser paga.

Por isso, o recorde de 82% de famílias endividadas deve ser analisado junto com outros dados. O crédito é importante para o funcionamento da economia, pois permite comprar casas, veículos, eletrodomésticos e equipamentos. O risco aparece quando a parcela fica maior do que a renda disponível.

Outro levantamento, produzido pela CNDL e pelo SPC Brasil, estimou que 75,08 milhões de adultos estavam inadimplentes em julho de 2026. Esse número representa aproximadamente 44,75% da população adulta.

Os resultados da CNDL e da CNC não são diretamente iguais porque as instituições utilizam metodologias, bases de dados e unidades de comparação diferentes. Uma pesquisa acompanha famílias; a outra verifica consumidores negativados.

Como a dívida das famílias afeta as empresas?

Quando uma família precisa usar boa parte da renda para pagar cartão, empréstimos ou prestações anteriores, sobra menos dinheiro para novas compras. O efeito é especialmente forte em móveis, eletrodomésticos, eletrônicos e outros produtos de maior valor.

Esse mecanismo cria um ciclo:

  1. o consumidor compromete uma parcela crescente da renda com dívidas;
  2. as contas atrasadas aumentam e o acesso ao crédito fica mais difícil;
  3. as vendas parceladas diminuem;
  4. as lojas passam a vender menos;
  5. as empresas perdem receita e enfrentam dificuldades para pagar fornecedores;
  6. os fornecedores reduzem os prazos ou suspendem novas entregas;
  7. a empresa fica com menos produtos e pode vender ainda menos.

Esse ciclo ajuda a explicar por que as redes de móveis e eletrodomésticos estão entre as mais pressionadas. Elas dependem de compras parceladas e trabalham com produtos que o consumidor consegue adiar quando o orçamento está apertado.

Então a economia brasileira está ruim?

A resposta depende do indicador analisado. Para empresas dependentes de crédito, pequenos negócios e famílias com dívidas, o cenário é bastante difícil. Juros altos, inadimplência recorde e desaceleração do consumo formam uma combinação perigosa.

Entretanto, não é correto afirmar que todos os indicadores econômicos estão negativos ou que o Brasil se encontra em uma recessão generalizada.

No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego ficou em 5,4%, o menor resultado para o período desde o início da pesquisa do IBGE. O país possuía 103,1 milhões de pessoas ocupadas e 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada.

O rendimento médio real chegou a R$ 3.738, com crescimento de 2,8% na comparação anual. Esses dados mostram que o mercado de trabalho permanece aquecido, conforme informações da Agência Brasil, com base na Pnad Contínua do IBGE .

Ao mesmo tempo, a atividade econômica perdeu velocidade. O IBC-Br, indicador do Banco Central considerado uma prévia do PIB, cresceu apenas cerca de 0,2% no segundo trimestre, depois de avançar mais de 1% no primeiro. Em junho, o indicador recuou aproximadamente 0,6%.

Assim, o diagnóstico mais correto é que o Brasil vive uma desaceleração econômica com forte pressão financeira sobre empresas e famílias, e não necessariamente uma paralisação completa da economia.

Problemas de gestão também precisam ser considerados

Os juros e o endividamento ajudam a explicar a situação, mas não podem receber toda a responsabilidade. Cada empresa possui uma história diferente.

Algumas companhias fizeram expansões caras, investiram em projetos que não apresentaram o retorno esperado ou assumiram dívidas calculando que os juros permaneceriam baixos. Outras demoraram para adaptar lojas, estoques e sistemas de entrega ao avanço do comércio eletrônico.

A Raízen, por exemplo, realizou investimentos elevados em novas tecnologias e negócios. O St. Marche ampliou rapidamente sua rede durante a pandemia. Já as varejistas de móveis precisam enfrentar concorrentes digitais, mudanças nos hábitos dos consumidores e os custos de manter grandes lojas físicas.

Portanto, o cenário econômico funciona como um teste: empresas bem organizadas também sentem os juros altos, mas aquelas que já possuíam dívidas excessivas, margens pequenas ou problemas administrativos tendem a sofrer primeiro.

Recuperação judicial significa falência?

Não. A recuperação judicial é uma tentativa de evitar a falência. A empresa apresenta um plano aos credores para renegociar valores, descontos e prazos, enquanto procura manter suas atividades.

Na recuperação extrajudicial, a companhia negocia com determinados grupos de credores e posteriormente pede a homologação do acordo pela Justiça. Na recuperação judicial, o processo é mais amplo e acompanhado diretamente pelo Judiciário.

Nenhum dos dois procedimentos garante que a empresa será recuperada. Caso o plano fracasse e a operação deixe de ser viável, a falência ainda poderá ser decretada.

O que consumidores devem fazer?

O pedido de recuperação judicial não cancela compras nem elimina os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor. Quem adquirir produtos de uma empresa em reestruturação deve guardar:

  • nota fiscal e comprovante de pagamento;
  • descrição completa do produto;
  • prazo prometido para entrega;
  • número do pedido;
  • mensagens e registros de atendimento;
  • comprovantes de pedidos de cancelamento ou reembolso.

Se o produto não for entregue, o consumidor pode procurar o SAC da empresa, a plataforma Consumidor.gov.br , o Procon ou o Juizado Especial Cível. Pagamentos realizados com cartão também podem ser contestados junto à administradora quando houver descumprimento da compra.

O que pode melhorar esse cenário?

A redução gradual dos juros pode aliviar o custo das dívidas, mas o efeito não é imediato. Bancos ainda precisam considerar o risco de inadimplência antes de baixar as taxas cobradas de empresas e consumidores.

Para que a situação melhore de forma mais consistente, será necessário combinar juros menores, inflação controlada, aumento da produtividade, recuperação da confiança, renegociação das dívidas existentes e crescimento da renda.

Até que isso aconteça, empresas com pouco caixa, muitas dívidas e grande dependência de vendas parceladas continuarão especialmente vulneráveis.

Fontes consultadas

Nota editorial: os valores das dívidas e a situação dos processos foram verificados em 19 de agosto de 2026 e poderão mudar durante as negociações. Endividamento, inadimplência, recuperação judicial e falência possuem significados diferentes. Os casos apresentados não decorrem exclusivamente do cenário econômico, pois decisões administrativas, investimentos, concorrência e problemas internos também influenciam cada empresa.

Nota sobre a imagem: a fotografia utilizada foi produzida por Junius e liberada pelo próprio autor para o domínio público, conforme declaração disponível no Wikimedia Commons.

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