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13 min de leitura
Nesta matéria
  1. Por que a Kohler fechou a fábrica de Andradas?
  2. Então o problema não foi simplesmente o mercado brasileiro?
  3. Fechou a fábrica ou saiu do Brasil?
  4. Kohler vai aumentar o número de lojas no Brasil
  5. Fábrica recebeu mais de R$ 200 milhões e chegou a ter cerca de mil funcionários
  6. Por que uma fábrica que recebeu tanto investimento deixou de interessar?
  7. Nearshoring também pesou contra Andradas
  8. A estratégia global da Kohler já vinha mudando
  9. E como está o mercado brasileiro de materiais de construção?
  10. Foi estratégia ou o Brasil deixou de valer a pena?
  11. O caso é ruim para a indústria brasileira mesmo assim
  12. O fechamento mostra uma diferença entre mercado consumidor e mercado produtor
  13. Linha do tempo da Kohler em Andradas
  14. Perguntas frequentes
  15. Fontes consultadas

NEGÓCIOS

Kohler fecha fábrica de Andradas após investir R$ 200 milhões; decisão combina estratégia global e mercado pressionado

Multinacional encerrou sua única produção no Brasil e descontinuou a marca Fiori, mas não abandonou o país. A empresa vai ampliar lojas voltadas ao público premium e de luxo, enquanto concentra a fabricação em outras regiões.

A americana Kohler encerrou em a produção de sua fábrica de louças sanitárias em Andradas, no Sul de Minas Gerais, com impacto sobre mais de 400 empregos diretos e o fim da marca Fiori. Apesar do fechamento de sua única unidade industrial brasileira, a companhia não está deixando o Brasil. A apuração indica que a decisão combina uma mudança global de estratégia com dificuldades específicas da produção de itens de menor valor agregado e da utilização da fábrica brasileira para exportações.

Principais informações:
  • A Kohler fechou a fábrica de Andradas e encerrou a marca Fiori, mas mantém distribuição, atendimento e sua rede de lojas no Brasil.
  • A unidade produzia principalmente louças do segmento standard, no qual a própria empresa reconhece forte competição por preço e custos.
  • A companhia possui 33 Kohler Signature Stores no país e pretende chegar perto de 40 ainda em 2026, sinal de que o mercado brasileiro continua dentro de sua estratégia.

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Logotipo da Kohler, fabricante de produtos para cozinhas e banheiros
A Kohler encerrou sua produção industrial em Andradas, mas continuará atuando comercialmente no Brasil. Imagem: Kohler Company, via Wikimedia Commons. O arquivo é classificado como domínio público por ser composto por formas simples e texto; a marca registrada continua protegida.

Por que a Kohler fechou a fábrica de Andradas?

A explicação oficial da companhia é uma reformulação estratégica da operação brasileira. A Kohler decidiu deixar de fabricar no país os produtos associados principalmente às faixas de entrada e intermediária e concentrar seus investimentos nos segmentos premium e de luxo.

Roberto Riolobos, diretor administrativo da Kohler para Brasil e América Latina, afirmou que o fechamento ocorreu após uma revisão do portfólio e que os recursos serão direcionados para áreas consideradas pela empresa com maior capacidade de crescimento e diferenciação.

A própria companhia afirmou que "o Brasil continua sendo um mercado estratégico e prioritário". Esse ponto é importante para entender o fechamento: a decisão não equivale à conclusão de que vender produtos no Brasil deixou de valer a pena.

O que perdeu espaço dentro da estratégia da Kohler foi o modelo da fábrica mineira e o tipo de produto que ela produzia.

Então o problema não foi simplesmente o mercado brasileiro?

Não. Os dados e declarações disponíveis não sustentam a conclusão de que a Kohler considere o Brasil um mercado inviável.

O melhor retrato da decisão é outro: a companhia ainda quer vender no Brasil, mas não considera mais necessário fabricar aqui os mesmos produtos que produzia em Andradas.

A fábrica estava ligada principalmente ao segmento chamado de standard, no qual vasos sanitários, lavatórios e outras peças enfrentam concorrência intensa baseada em preço. Roberto Riolobos descreveu esse mercado como um setor em que os produtos acabam disputando espaço quase como commodities.

Nesse ambiente, custo de fabricação, escala, logística e preço final pesam muito. A Kohler passou a considerar mais atraente utilizar sua cadeia de produção internacional e concentrar a operação brasileira em produtos de maior margem.

Kohler vai aumentar o número de lojas no Brasil

Um dos sinais mais claros de que a empresa não desistiu do mercado brasileiro está justamente no varejo.

Quando anunciou a reformulação, a Kohler informou possuir 33 Kohler Signature Stores no Brasil e declarou a expectativa de encerrar 2026 perto de 40 unidades.

Essas lojas são voltadas principalmente a consumidores de maior renda, arquitetos, especificadores, projetos residenciais sofisticados, hotelaria e empreendimentos de alto padrão.

A estratégia reduz a exposição da companhia ao mercado de produtos básicos e aumenta a concentração em itens nos quais design, tecnologia e marca pesam mais na decisão de compra do que apenas o preço.

O que muda na operação da Kohler no Brasil
Área Situação
Fábrica de Andradas Produção encerrada em 31 de agosto de 2026
Marca Fiori Descontinuada pela Kohler
Produção industrial no Brasil Encerrada na atual estrutura
Venda de produtos Kohler Continua
Distribuição e suporte Continuam no país
Kohler Signature Stores 33 unidades, com previsão de chegar perto de 40 em 2026
Foco futuro Produtos premium e de luxo

Fábrica recebeu mais de R$ 200 milhões e chegou a ter cerca de mil funcionários

O encerramento chama atenção porque a unidade de Andradas recebeu investimentos elevados ao longo da passagem da Kohler pelo município.

A multinacional entrou de forma mais direta no mercado brasileiro em 2014, quando comprou a fabricante Fiori. A empresa mineira havia sido fundada em 1978 e começou a produzir louças sanitárias em 2000.

Depois da aquisição, a Kohler ampliou a estrutura e passou a produzir em Andradas tanto produtos Fiori quanto itens da própria marca americana. Segundo informações da companhia divulgadas durante os últimos anos, os investimentos acumulados superaram R$ 200 milhões.

Antes da pandemia, a operação chegou a reunir aproximadamente mil trabalhadores. Documentos do Ministério do Trabalho mostram que a empresa já tinha mais de 900 colaboradores em 2017.

No momento do fechamento, pouco mais de 400 trabalhadores estavam ligados diretamente à planta.

Por que uma fábrica que recebeu tanto investimento deixou de interessar?

Investimento passado não garante que uma fábrica continue fazendo sentido para sempre. Grandes grupos costumam comparar cada unidade com outras plantas da própria rede, considerando custo por peça, escala, logística, mercado atendido e retorno do capital.

Andradas enfrentou uma mudança importante nesse cálculo.

Parte da produção mineira era exportada para os Estados Unidos, principal mercado da Kohler. Ao mesmo tempo, a multinacional aumentou sua capacidade de fabricação no México, mais próximo do consumidor americano.

Segundo executivos da companhia ouvidos pela imprensa, uma das novas estruturas mexicanas possui capacidade para produzir cerca de 7 milhões de itens por ano. A fábrica brasileira, em seu período de maior capacidade, produzia aproximadamente 1 milhão de peças anuais.

Essa diferença de escala ajuda a explicar por que a companhia passou a abastecer parte de sua cadeia a partir de outras regiões.

Nearshoring também pesou contra Andradas

O movimento é conhecido como nearshoring. Em vez de produzir muito longe de seu principal cliente, uma empresa transfere ou amplia a fabricação em países próximos do mercado que deseja abastecer.

No caso da Kohler, fabricar no México oferece acesso geograficamente mais próximo aos Estados Unidos. Para uma fábrica brasileira que também dependia de exportações ao mercado americano, isso reduz uma das vantagens de permanecer na cadeia de fornecimento do grupo.

Allan di Bartolomeo, diretor jurídico da Kohler para a América Latina, também afirmou que as tarifas americanas sobre produtos brasileiros foram "mais um desestímulo" para a operação.

Em julho de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, USTR, anunciou tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros dentro de uma ação comercial contra o país.

A Kohler não apresentou publicamente uma conta mostrando quanto do fechamento decorreu das tarifas. O próprio executivo deixou claro que esse fator não foi isoladamente responsável pela decisão.

A estratégia global da Kohler já vinha mudando

Há sinais anteriores de que o fechamento de Andradas faz parte de uma reorganização maior e não de uma decisão tomada apenas por causa do Brasil.

Em 2023, a Kohler adquiriu a britânica Kast Concrete Basins, especializada em cubas de concreto voltadas ao segmento premium. Em janeiro de 2024, concluiu a compra da alemã KLAFS, fabricante de saunas, banhos a vapor e outros produtos de wellness de alto padrão.

No mesmo período, o grupo separou sua tradicional divisão de energia. Em maio de 2024, a Platinum Equity tornou-se controladora do negócio, enquanto a Kohler permaneceu como investidora minoritária.

David Kohler, presidente e CEO do grupo, explicou na ocasião que a operação permitiria concentrar investimentos nos negócios globais de cozinhas e banheiros, wellness e hospitalidade.

Ou seja, a companhia já vinha simplificando sua estrutura e dando mais peso aos segmentos nos quais acredita conseguir cobrar mais por design, tecnologia, experiência e diferenciação.

E como está o mercado brasileiro de materiais de construção?

O cenário doméstico de 2026 também não ajuda fabricantes que dependem de grande volume e competição por preço.

A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção, Abramat, reduziu sua previsão de crescimento do setor em 2026 de 1,9% para apenas 0,5%.

No primeiro semestre, o faturamento real da indústria de materiais de construção recuou 3,4% em relação ao mesmo período de 2025. Dados posteriores mostraram perda acumulada de 2,7% entre janeiro e julho, com queda de aproximadamente 3,2% entre os materiais de acabamento.

Juros elevados, crédito mais caro e endividamento das famílias aparecem entre as razões citadas pela entidade para o desempenho fraco.

Esses números ajudam a explicar por que competir no segmento de menor preço ficou mais difícil. Eles não provam, porém, que o mercado brasileiro de construção tenha deixado de ser viável.

A própria Abramat continua projetando crescimento, ainda que pequeno, e pesquisas da entidade mostram empresas mantendo planos de investimento.

Foi estratégia ou o Brasil deixou de valer a pena?

Pelas informações disponíveis, a resposta mais precisa é: foi principalmente uma decisão estratégica, tomada em um momento em que o segmento atendido pela fábrica brasileira estava pressionado.

Há quatro fatores que aparecem repetidamente nas explicações da companhia: mudança para produtos de luxo, forte concorrência por preço nas linhas standard, transferência de capacidade para regiões mais próximas dos Estados Unidos e perda de atratividade das exportações brasileiras.

O desempenho fraco do setor brasileiro de materiais de construção em 2026 acrescenta pressão, mas não parece ter sido o único motivo nem o principal argumento apresentado pela Kohler.

Há ainda um dado difícil de conciliar com a ideia de que "o Brasil não vale mais a pena": a empresa está fechando a fábrica enquanto abre mais pontos de venda no próprio Brasil.

Em outras palavras, a Kohler não está desistindo do consumidor brasileiro. Ela está mudando a forma de ganhar dinheiro com ele.

O caso é ruim para a indústria brasileira mesmo assim

Para Andradas, a distinção entre saída comercial e saída industrial muda pouco o impacto imediato. Mais de 400 empregos diretos desapareceram da fábrica e fornecedores, transportadores, comércio e prestadores de serviços locais também podem sentir os efeitos.

A Prefeitura informou que acompanha o impacto econômico e iniciou conversas com entidades empresariais e com o Governo de Minas para buscar novos investimentos.

Existe ainda a possibilidade de outra fabricante assumir o complexo industrial. A Kohler admitiu avaliar a venda do parque a uma concorrente, e a Santa Clara Louças Sanitárias, de Araxá, apareceu entre as empresas que analisam a unidade.

Até agora, não existe anúncio de venda concluída. Representantes da Santa Clara afirmaram que uma eventual operação depende das condições comerciais e de negociações com o poder público.

O fechamento mostra uma diferença entre mercado consumidor e mercado produtor

O caso Kohler expõe uma distinção importante. Um país pode continuar sendo atraente para vender e, ao mesmo tempo, perder competitividade para fabricar determinado produto.

Para a companhia, o consumidor brasileiro de alto padrão continua justificando novas lojas e investimentos comerciais. Já a produção de grande volume e menor margem passou a competir internamente com fábricas maiores ou mais próximas do principal mercado internacional da empresa.

É por isso que o encerramento de Andradas não pode ser resumido nem como simples "abandono do Brasil" nem como uma decisão sem relação com custos locais. Há uma combinação de estratégia corporativa, escala, comércio internacional e condições do setor brasileiro.

Linha do tempo da Kohler em Andradas

  • 1978: nasce a Fiori em Andradas, inicialmente voltada à fabricação de louças artísticas.
  • 2000: a empresa passa a produzir louças sanitárias.
  • 2014: a Kohler compra a Fiori e entra de forma mais ampla no mercado brasileiro de cozinhas e banheiros.
  • 2017: a operação já contava com mais de 900 trabalhadores, segundo registros citados pelo Ministério do Trabalho.
  • Anos seguintes: investimentos acumulados na unidade superam R$ 200 milhões e a produção passa a incluir itens da própria marca Kohler.
  • 17 de agosto de 2026: trabalhadores entram em férias coletivas.
  • 31 de agosto de 2026: a Kohler comunica o encerramento definitivo da produção em Andradas e a descontinuação da Fiori.
  • Setembro de 2026: empresa, sindicato e trabalhadores passam a negociar as condições das rescisões, enquanto autoridades procuram interessados na planta.

Perguntas frequentes

A Kohler saiu do Brasil?

Não. A empresa encerrou sua fábrica, mas continuará vendendo produtos no Brasil, mantendo distribuição, suporte e sua rede de lojas.

Quantas pessoas perderam o emprego em Andradas?

Mais de 400 trabalhadores diretos foram atingidos pelo encerramento da unidade.

Quanto a Kohler investiu na fábrica brasileira?

A unidade recebeu mais de R$ 200 milhões em investimentos desde a aquisição da Fiori, segundo informações divulgadas pela companhia.

Por que a fábrica foi fechada?

A empresa aponta uma mudança de estratégia para produtos premium e de luxo. Também pesaram a competição por preço nas linhas standard, a expansão produtiva em outras regiões e mudanças na logística de exportação para os Estados Unidos.

O mercado brasileiro deixou de ser interessante para a Kohler?

Não é o que a empresa afirma. A Kohler classifica o Brasil como mercado estratégico, mantém 33 lojas exclusivas e pretende chegar perto de 40 ainda em 2026.

A marca Fiori continuará existindo?

Não dentro da atual operação da Kohler. A companhia anunciou a descontinuação da marca juntamente com o encerramento da produção em Andradas.

A fábrica pode voltar a produzir com outra empresa?

É possível. A Kohler avalia vender a estrutura e já houve manifestação de interesse de outra fabricante, mas não existe negócio concluído até a verificação desta matéria.

Fontes consultadas

Nota editorial: matéria verificada em 14 de setembro de 2026. A conclusão de que o fechamento resulta principalmente de uma reformulação estratégica se baseia nas declarações da própria Kohler, confrontadas com dados do setor e informações sobre sua reorganização global. Não foram encontrados dados públicos que permitam separar em percentuais o peso de custos brasileiros, tarifas, exportações, concorrência e decisões internas da companhia. A situação da antiga planta de Andradas e as negociações trabalhistas permanecem sujeitas a atualização.

Nota sobre a imagem: o logotipo é usado para identificação da empresa e não representa a fábrica de Andradas. O Wikimedia Commons classifica o arquivo como domínio público por ser composto por elementos gráficos simples e texto. A condição de domínio público não elimina os direitos associados à marca registrada Kohler.

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