EUA e Irã voltam a trocar ataques: por que Hormuz pode afetar petróleo e combustíveis
Nova escalada militar elevou o prêmio de risco do petróleo e voltou a reduzir o tráfego pelo Estreito de Hormuz; impacto no Brasil pode aparecer principalmente no diesel, nas importações e nos custos de transporte.
Estados Unidos e Irã voltaram a trocar ataques militares no início de setembro de 2026, depois de semanas de relativa calma, reacendendo a preocupação com o Estreito de Hormuz, passagem estratégica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Nesta sexta-feira, 4 de setembro, o petróleo Brent estava perto de US$ 95 por barril e caminhava para uma alta semanal superior a 6%, enquanto o tráfego marítimo pelo estreito permanecia muito abaixo do observado antes da guerra.
- Hormuz movimentava antes do conflito cerca de um quinto do petróleo e dos derivados consumidos no mundo e continua sendo uma das rotas energéticas mais importantes do planeta.
- Apenas quatro navios de commodities foram observados atravessando o estreito na quinta-feira, 3 de setembro, bem abaixo da média recente, embora embarcações com rastreadores desligados não apareçam nesses dados.
- O Brasil produz e exporta petróleo, mas ainda depende de importações de derivados, especialmente diesel; por isso, uma alta internacional prolongada pode chegar ao frete, aos combustíveis e a outros preços internos.
O que aconteceu entre Estados Unidos e Irã?
A nova escalada começou no fim de agosto. Os Estados Unidos voltaram a atacar alvos iranianos depois de um período de menor intensidade nos confrontos.
Em 1º de setembro, o Comando Central dos Estados Unidos, o CENTCOM, confirmou uma nova onda de ataques contra alvos da Guarda Revolucionária do Irã. Segundo o comando militar americano, foram atingidos sistemas de defesa aérea, radares, instalações e equipamentos marítimos, estruturas de comunicação e capacidades relacionadas à colocação de minas.
Washington afirmou que a operação foi uma resposta a tentativas iranianas de atacar navios comerciais no Estreito de Hormuz e militares americanos.
O Irã respondeu com mísseis e drones contra instalações utilizadas por forças americanas em países do Oriente Médio. Houve ataques ou tentativas de ataque relatados em locais como Jordânia, Bahrein, Kuwait e Iraque.
As autoridades iranianas afirmaram ter causado baixas entre militares americanos em alguns desses ataques. Autoridades dos Estados Unidos contestaram parte dessas alegações e disseram que avaliações iniciais não indicavam as mortes reivindicadas por Teerã.
A escalada foi a mais intensa desde julho, segundo a Reuters.
Por que o Estreito de Hormuz é tão importante?
Hormuz é uma passagem relativamente pequena no mapa, mas concentra uma parcela enorme do comércio mundial de energia.
O estreito liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e, depois, ao Oceano Índico. Petróleo produzido por países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Irã utiliza essa rota para alcançar os mercados internacionais.
Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA, mostram que em 2024 passaram pelo estreito cerca de 20,7 milhões de barris de petróleo e derivados por dia.
No primeiro semestre de 2025, o volume ficou em aproximadamente 20,9 milhões de barris por dia.
Antes da atual guerra, isso correspondia a aproximadamente:
- um quinto do consumo mundial de petróleo e derivados;
- mais de um quarto de todo o petróleo transportado pelo mar;
- cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito, o GNL.
Em outras palavras, não é necessário destruir campos de petróleo para causar uma crise energética. Basta tornar perigoso ou muito caro transportar a produção que já existe.
O conflito já derrubou drasticamente o fluxo de petróleo por Hormuz
O impacto em 2026 é muito mais do que hipotético.
A EIA estima que o fluxo de petróleo e derivados pelo estreito caiu para uma média de 4,9 milhões de barris por dia no segundo trimestre de 2026, contra 21,6 milhões no quarto trimestre de 2025, antes do início do conflito.
Parte da produção passou a utilizar rotas alternativas. A Arábia Saudita, por exemplo, aumentou o uso de seu sistema de oleodutos em direção ao Mar Vermelho.
Mas essas alternativas não conseguem substituir completamente Hormuz.
Apenas quatro navios foram observados atravessando o estreito
Dados preliminares da empresa de análise marítima Kpler mostraram que somente quatro embarcações de commodities atravessaram Hormuz na quinta-feira, 3 de setembro.
Foram dois navios-tanque e dois cargueiros. No dia anterior haviam sido nove.
A média dos dez dias anteriores estava próxima de 15 embarcações, enquanto, antes da guerra iniciada em fevereiro, cerca de 125 grandes navios comerciais atravessavam diariamente a passagem, considerando petroleiros, navios de gás, cargueiros e porta-contêineres.
Há uma ressalva importante: os dados de rastreamento não conseguem contabilizar navios que atravessam a região com o sistema AIS desligado para reduzir sua identificação.
Governo dos EUA e dados de navegação apresentam imagens diferentes
Existe uma divergência relevante sobre o grau de normalização do fluxo.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou em 3 de setembro que a movimentação de petróleo e gás pelo estreito estava próxima dos níveis anteriores à guerra.
Dados de rastreamento divulgados pela Reuters no dia seguinte, porém, apontavam tráfego de embarcações ainda bem abaixo da média recente.
As duas informações não são necessariamente uma contradição perfeita: número de navios e volume de petróleo transportado são medidas diferentes, e alguns navios podem navegar sem transmitir sua posição.
Mesmo assim, a diferença mostra por que ainda não é possível tratar a circulação pela região como totalmente normalizada.
O petróleo voltou a subir com os novos ataques
O mercado reagiu rapidamente à retomada dos confrontos.
Na atualização consultada em 4 de setembro, o Brent estava em torno de US$ 95,29 por barril, enquanto o petróleo americano WTI estava próximo de US$ 90,76.
Apesar de uma pequena queda no dia, o Brent acumulava alta aproximada de 6,1% na semana e o WTI, de 8,3%.
Analistas ouvidos pela Reuters destacaram que a alta recente não veio apenas de uma falta física adicional de petróleo. Uma parcela importante é resultado do chamado prêmio de risco geopolítico.
O que é o prêmio de risco do petróleo?
O mercado não espera necessariamente um petroleiro deixar de chegar ao porto para reajustar preços.
Quando aumenta a possibilidade de novos ataques, fechamento de rotas, minas marítimas ou interrupção da produção, compradores e vendedores passam a considerar esse risco imediatamente.
Isso pode elevar:
- o preço futuro do petróleo;
- o preço do diesel e da gasolina no mercado internacional;
- o custo do seguro marítimo;
- o frete dos navios;
- o custo de financiamento e proteção de operações comerciais.
Se o risco diminui sem que a oferta tenha sido efetivamente afetada, parte dessa alta também pode desaparecer rapidamente.
O Irã consegue fechar completamente o Estreito de Hormuz?
Um fechamento total e permanente é difícil, especialmente diante da presença militar dos Estados Unidos e de aliados na região.
Mas nem é necessário bloquear fisicamente 100% da passagem para provocar problemas.
Minas, ataques contra navios, ameaças, interceptações e custos de seguro podem fazer empresas de navegação simplesmente decidir que atravessar o estreito não compensa.
Esse efeito já foi observado em 2026: mesmo quando existe passagem física possível, o fluxo comercial permanece muito menor do que antes do conflito.
Existem rotas alternativas?
Sim, mas a capacidade é limitada.
A Arábia Saudita possui o oleoduto East-West, capaz de transportar petróleo do leste do país até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, evitando Hormuz.
Os Emirados Árabes Unidos também conseguem desviar parte da produção por oleodutos até o porto de Fujairah, localizado fora da entrada do Golfo Pérsico.
Antes da guerra, a EIA estimava em aproximadamente 2,6 milhões de barris por dia a capacidade disponível adicional desses sistemas para contornar Hormuz em uma emergência.
O problema é evidente: o estreito movimentava mais de 20 milhões de barris por dia. Os oleodutos reduzem o impacto, mas não substituem toda a rota marítima.
Por que isso pode chegar ao preço do combustível no Brasil?
O Brasil é grande produtor e exportador de petróleo. Mesmo assim, isso não significa que os preços brasileiros estejam isolados do mercado internacional.
Petróleo bruto e combustíveis prontos são produtos diferentes. O país exporta grandes volumes de óleo cru, mas também importa derivados para complementar a produção das refinarias.
O exemplo mais importante é o diesel.
Nota técnica da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, mostra que, em 2025, as importações líquidas de diesel chegaram a 16,3 milhões de metros cúbicos, equivalentes a 27,3% da demanda interna.
Isso cria uma ligação direta entre o mercado internacional e parte do abastecimento brasileiro.
Alta internacional não significa reajuste automático na bomba
Uma alta do Brent hoje não significa que a gasolina ou o diesel subirão amanhã exatamente na mesma proporção.
No Brasil, o preço final dos combustíveis depende de vários componentes:
- preço cobrado pelo produtor ou importador;
- cotação internacional do petróleo e dos derivados;
- taxa de câmbio entre real e dólar;
- custos de frete e importação;
- tributos federais e estaduais;
- preço do etanol misturado à gasolina e do biodiesel misturado ao diesel;
- custos e margens de distribuidores e postos.
A ANP acompanha inclusive o chamado Preço de Paridade de Importação, PPI, que estima quanto custaria trazer gasolina, diesel, querosene de aviação e GLP do exterior até diferentes pontos do Brasil.
Se o combustível importado fica muito mais caro durante um período prolongado, essa diferença tende a pressionar o mercado nacional.
O diesel é o ponto mais sensível para o Brasil
O diesel merece atenção porque participa diretamente do transporte de cargas e do transporte público.
Quando o diesel sobe, o efeito não fica restrito ao motorista que abastece uma caminhonete.
Ele pode aparecer no custo de transporte de:
- alimentos;
- medicamentos;
- materiais de construção;
- produtos industriais;
- mercadorias entregues pelo comércio eletrônico;
- insumos agrícolas.
Por isso, uma crise prolongada no petróleo pode acabar contribuindo para uma pressão inflacionária mais ampla.
Governo brasileiro criou monitoramento específico por causa de Hormuz
O risco para o abastecimento brasileiro já levou o Ministério de Minas e Energia a criar uma estrutura específica em 2026.
Desde março, o MME e a ANP mantêm uma Sala de Monitoramento do Abastecimento para acompanhar os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre produção, importações, estoques e distribuição de combustíveis.
Os trabalhos começaram depois que a passagem de cargas por Hormuz foi severamente reduzida no início da guerra.
A estrutura monitora especialmente o diesel justamente por causa da dependência brasileira de importações desse combustível.
Brasil também pode ganhar com petróleo mais caro?
Em alguns setores, sim.
Como o Brasil é um importante exportador de petróleo bruto, cotações internacionais mais altas podem aumentar a receita das empresas produtoras e o valor das exportações, além de elevar determinadas receitas públicas associadas à produção.
Mas isso não elimina o problema dos derivados.
O país pode, ao mesmo tempo, ganhar mais exportando petróleo e pagar mais caro para importar determinados combustíveis. O resultado para o consumidor depende da duração da crise, do câmbio, das políticas de preço, da capacidade das refinarias e de decisões tributárias ou governamentais.
O gás natural também está em risco
Hormuz não é importante apenas para o petróleo.
Em 2024, aproximadamente 20% de todo o gás natural liquefeito negociado internacionalmente passou pelo estreito, segundo a EIA.
O Qatar é particularmente dependente da rota para suas exportações de GNL.
Uma interrupção prolongada poderia elevar preços de gás e eletricidade em mercados importadores, principalmente na Ásia, mas também gerar efeitos indiretos na Europa e em outros países por meio da disputa mundial pelas mesmas cargas disponíveis.
Por que fechar Hormuz afeta até países que não compram petróleo do Irã?
Porque o mercado de petróleo é global.
Se compradores asiáticos deixam de receber petróleo do Golfo Pérsico, eles precisam procurar barris em outros lugares, como Estados Unidos, Brasil, África ou outras regiões produtoras.
Isso aumenta a competição pela oferta disponível.
Assim, mesmo um país que não importe uma única gota de petróleo iraniano pode pagar mais caro pelo produto que compra de outro fornecedor.
China e Índia estão entre os países mais expostos
A maior parte do petróleo que normalmente atravessa Hormuz segue para a Ásia.
Dados da EIA referentes a 2024 mostram que 84% do petróleo cru e condensado transportado pela rota foi destinado aos mercados asiáticos.
China, Índia, Japão e Coreia do Sul responderam juntos por 69% dessas cargas.
Por isso, uma crise prolongada pode afetar grandes economias industriais asiáticas e, por consequência, cadeias internacionais de produção e comércio.
O que precisa acontecer para o petróleo subir ainda mais?
O cenário de maior risco envolveria uma combinação de fatores:
- novos ataques contra petroleiros;
- colocação de novas minas no estreito;
- ataques contra portos e terminais de exportação;
- ataques contra campos de petróleo ou refinarias;
- redução adicional do tráfego comercial;
- entrada mais direta de outros países na guerra;
- fracasso prolongado das negociações diplomáticas.
Por outro lado, um acordo capaz de oferecer segurança aos navios e restaurar gradualmente os fluxos poderia retirar parte do prêmio de risco que hoje está embutido nos preços.
O que acompanhar nos próximos dias?
Para o consumidor brasileiro, três indicadores ajudam a entender se a crise tende a se transformar em um problema maior.
- Brent: se o barril permanecer elevado ou voltar a superar níveis vistos nos momentos mais tensos da guerra, aumenta a pressão sobre derivados.
- Tráfego em Hormuz: uma recuperação consistente dos navios e volumes de petróleo reduziria o risco de abastecimento.
- Câmbio: petróleo caro combinado com dólar mais alto aumenta ainda mais o custo de importação para o Brasil.
Uma oscilação de alguns dias não permite prever o preço na bomba. O problema se torna maior quando petróleo caro, frete elevado e fluxo reduzido permanecem por semanas ou meses.
Perguntas frequentes sobre Hormuz, petróleo e combustíveis
Onde fica o Estreito de Hormuz?
O estreito fica entre o Irã e Omã e liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico.
Quanto petróleo passa por Hormuz?
Antes da guerra, o fluxo estava próximo de 20 a 21 milhões de barris por dia. A EIA calculou 20,9 milhões de barris diários no primeiro semestre de 2025. Durante o conflito de 2026, o volume caiu drasticamente.
O Estreito de Hormuz está totalmente fechado?
Não no sentido de que nenhum navio consiga atravessá-lo. O tráfego está severamente prejudicado e sujeitos a riscos, restrições e ataques. Algumas embarcações continuam passando.
O preço da gasolina vai subir no Brasil?
Não é possível afirmar que haverá um reajuste específico apenas com base nos ataques desta semana. Uma alta internacional prolongada aumenta a pressão sobre os custos, mas o preço ao consumidor depende de petróleo, derivados, câmbio, impostos, biocombustíveis, distribuição e decisões dos fornecedores.
E o diesel?
O diesel é particularmente sensível porque o Brasil ainda importa parte relevante do produto que consome. Em 2025, as importações líquidas corresponderam a 27,3% da demanda interna, segundo nota técnica da ANP.
Por que o Brasil é afetado se produz petróleo?
Porque produzir petróleo bruto não significa produzir internamente todo o volume e todos os tipos de derivados consumidos. Além disso, petróleo e combustíveis são negociados em mercados internacionais.
O petróleo já subiu com os novos ataques?
Sim. Em 4 de setembro, o Brent estava perto de US$ 95 por barril e acumulava alta superior a 6% na semana, embora os preços variem continuamente durante as negociações.
Fontes consultadas
- Comando Central dos Estados Unidos: ataques de 1º de setembro contra alvos da Guarda Revolucionária do Irã
- Reuters: retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã em setembro
- Reuters: ataques iranianos contra bases na região e evolução da escalada
- Reuters: tráfego marítimo em Hormuz permanece abaixo da média em 4 de setembro
- Reuters: Brent perto de US$ 95 e alta semanal após retomada dos confrontos
- U.S. Energy Information Administration: fluxos de petróleo pelo Estreito de Hormuz e rotas alternativas
- U.S. Energy Information Administration: impacto do conflito de 2026 sobre o fluxo de petróleo em Hormuz
- U.S. Energy Information Administration: participação de Hormuz no comércio mundial de gás natural liquefeito
- Ministério de Minas e Energia: Sala de Monitoramento do Abastecimento criada após a crise em Hormuz
- ANP: preços de paridade de importação de gasolina, diesel, QAV e GLP
- ANP: composição e formação dos preços dos combustíveis no Brasil
- ANP: Nota Técnica nº 16/2026, com dados sobre dependência de importações de óleo diesel
- O Antagonista: declaração de JD Vance sobre o fluxo de petróleo em Hormuz
- Revista Oeste: retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã no fim de agosto
- Wikimedia Commons: mapa do Estreito de Hormuz, de Goran_tek-en, sob licença CC BY-SA 4.0
Nota editorial: matéria verificada em 4 de setembro de 2026. Preços de petróleo, tráfego marítimo e situação militar podem mudar rapidamente. As informações sobre ataques distinguem declarações do governo dos Estados Unidos, alegações iranianas e dados confirmados por fontes independentes. A menção ao possível impacto nos combustíveis brasileiros descreve mecanismos econômicos de transmissão de preços e não constitui previsão de reajuste específico na gasolina ou no diesel.
Nota sobre a imagem: o mapa é ilustrativo e mostra a localização geográfica do Estreito de Hormuz; não representa a situação militar ou as rotas efetivamente abertas em 4 de setembro de 2026. O arquivo de Goran_tek-en está disponível no Wikimedia Commons sob licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 4.0.