Cabos submarinos carregam mais de 99% dos dados internacionais: entenda como a internet cruza os oceanos
Satélites são importantes, mas a maior parte da comunicação digital entre continentes viaja por fibras ópticas instaladas no fundo do mar. Brasil concentra pontos estratégicos de chegada em cidades como Fortaleza, Rio de Janeiro, Praia Grande e Santos.
Mais de 99% dos fluxos internacionais de dados passam por cabos submarinos de telecomunicações, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT). Essa infraestrutura sustenta internet, serviços em nuvem, comunicações governamentais e operações financeiras entre países. No Brasil, a importância dos cabos levou a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) a iniciar em 2026 uma revisão das regras de segurança física, cibernética e de resiliência dessa rede.
- Cabos submarinos transportam mais de 99% dos fluxos internacionais de dados, segundo a UIT; satélites cumprem funções importantes, mas não carregam a maior parte do tráfego intercontinental.
- Fortaleza, Rio de Janeiro, Praia Grande e Santos estão entre os pontos brasileiros cuja concentração de cabos é acompanhada pela Anatel como questão de resiliência.
- Pesca, âncoras, atividades marítimas, fenômenos naturais e concentração geográfica estão entre os riscos que podem provocar interrupções ou dificultar reparos.
A internet entre continentes passa principalmente pelo fundo do mar
A imagem de dados sendo enviados ao redor do planeta por satélites é intuitiva, mas não representa a principal estrutura utilizada para transportar grandes volumes de informação entre continentes.
A União Internacional de Telecomunicações, agência especializada das Nações Unidas, informa que cabos submarinos transportam mais de 99% dos fluxos internacionais de dados.
A rede global reúne mais de 500 sistemas de cabos submarinos ativos ou planejados.
Eles conectam continentes e grandes centros de telecomunicações transportando tráfego relacionado a:
- sites e aplicativos;
- videoconferências;
- serviços de nuvem;
- comunicações empresariais;
- transações e serviços financeiros;
- comunicações governamentais;
- vídeos e transmissões online;
- interconexão entre grandes data centers.
Quando alguém no Brasil acessa um serviço hospedado em outro continente, parte desse tráfego pode percorrer milhares de quilômetros por fibras ópticas instaladas no leito oceânico.
Então para que servem os satélites?
Satélites continuam sendo fundamentais para telecomunicações, especialmente em áreas remotas, embarcações, aviação, aplicações militares, serviços de emergência e locais onde instalar infraestrutura terrestre é difícil.
Constelações de satélites de baixa órbita também ampliaram bastante a disponibilidade de internet em regiões sem fibra óptica.
Mas isso não significa que tenham substituído os cabos submarinos nas grandes rotas internacionais.
Cabos de fibra conseguem transportar enormes quantidades de dados entre pontos estratégicos com capacidade elevada e baixa latência. Por isso continuam funcionando como a espinha dorsal da conectividade global.
Como é um cabo de internet colocado no fundo do oceano?
Um cabo submarino moderno não é apenas um fio de fibra óptica jogado no mar.
No centro ficam as fibras ópticas responsáveis pela transmissão dos sinais luminosos. Ao redor delas são utilizadas diferentes camadas de proteção, que podem incluir materiais isolantes, estruturas metálicas e proteção contra água e pressão.
A configuração varia conforme a parte da rota.
Em águas profundas, onde há menor interferência humana, o cabo pode ser relativamente mais leve. Próximo à costa, onde existe maior exposição a pesca, âncoras e atividades marítimas, podem ser utilizadas camadas adicionais de proteção e enterramento no fundo do mar.
Como milhares de quilômetros de cabo são instalados?
A instalação é realizada por navios especializados.
Depois de definida a rota e estudado o fundo do oceano, enormes extensões de cabo são carregadas no navio e liberadas gradualmente durante a viagem.
Próximo ao litoral, equipamentos específicos podem abrir uma pequena passagem no leito marinho para enterrar e proteger o cabo.
O planejamento e a construção de uma nova ligação internacional podem levar anos. A UIT informa que o processo entre projeto e entrada em operação pode ultrapassar dois anos.
Os cabos ficam ligados diretamente de um computador ao outro?
Não.
Os cabos chegam à costa em pontos conhecidos como estações ou pontos de aterragem. A partir desses locais, o tráfego segue por redes terrestres de fibra óptica até data centers, operadoras, pontos de troca de tráfego e outras partes da infraestrutura.
O caminho de um dado pode, portanto, combinar:
- rede residencial ou móvel;
- rede da operadora;
- backbone terrestre;
- estação de chegada do cabo submarino;
- cabo transoceânico;
- nova rede terrestre em outro país;
- data center ou servidor de destino.
Por que Fortaleza é tão importante para a internet brasileira?
A posição geográfica de Fortaleza, no Ceará, favorece rotas de cabos que ligam o Brasil à América do Norte, Europa e outras regiões do Atlântico.
A cidade se tornou um dos pontos estratégicos para a chegada e interconexão de sistemas internacionais.
Em 2026, a própria Anatel destacou a concentração geográfica da infraestrutura em localidades como Fortaleza, Rio de Janeiro, Praia Grande e Santos ao abrir uma tomada de subsídios para revisar sua regulamentação.
A concentração traz vantagens econômicas e técnicas, porque cria grandes centros de conectividade. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de redundância: uma região que concentra muitos ativos importantes não pode se tornar um ponto único de falha.
O Brasil tem ligação direta com a Europa?
Sim.
O Ministério das Comunicações cita uma estrutura já existente entre Fortaleza e Sines, em Portugal, utilizada como parte da conectividade direta entre Brasil e Europa.
Essa rota ganhou nova expansão anunciada em 2026 com o projeto Lum@link.
Em janeiro, representantes brasileiros participaram na Guiana Francesa de um evento que marcou a chegada de uma nova infraestrutura destinada a conectar Caiena a essa rota internacional, criando uma ligação entre Guiana Francesa, Brasil e Europa.
Segundo o Ministério das Comunicações, o projeto abre possibilidade de futuras expansões para estados como Pará e Maranhão.
Brasil também deve ganhar novas rotas para os Estados Unidos
A expansão da infraestrutura não está limitada à Europa.
Durante o Mobile World Congress de 2026, o Ministério das Comunicações informou que a V.tal apresentou o projeto Elypsis, previsto para conectar Brasil e Estados Unidos.
Segundo o anúncio divulgado pelo governo, a rota partirá de São Paulo e passará por capitais do Nordeste e do Norte antes de chegar ao território norte-americano.
O projeto deve ser tratado como infraestrutura anunciada, e não como cabo já operacional.
O que acontece quando um cabo submarino é rompido?
Um rompimento não significa automaticamente que um país inteiro ficará sem internet.
Redes internacionais são construídas com diferentes rotas, e parte do tráfego pode ser redirecionada para outros cabos quando existe capacidade disponível.
O impacto depende principalmente de:
- quantos cabos atendem a região;
- capacidade disponível nas rotas alternativas;
- local do rompimento;
- quantidade de sistemas afetados simultaneamente;
- dependência daquela região de poucos pontos de conexão.
Países e ilhas ligados ao restante do mundo por poucos sistemas são naturalmente mais vulneráveis do que regiões atendidas por várias rotas independentes.
Cabos submarinos quebram com frequência?
Interrupções fazem parte da operação dessa infraestrutura.
A UIT informa que mais de 200 reparos de cabos submarinos foram registrados no mundo em 2023, uma média superior a três ocorrências por semana.
Isso não significa que a internet global seja interrompida centenas de vezes por ano. Redundância e redirecionamento de tráfego normalmente permitem que muitos problemas sejam absorvidos pela própria rede.
O maior risco não são sabotadores, mas atividades comuns no mar
Rompimentos deliberados recebem grande atenção porque possuem implicações geopolíticas. Estatisticamente, porém, atividades humanas comuns continuam sendo responsáveis por grande parte dos problemas.
O Global Connectivity Report 2025 da UIT informa que 86% das falhas estão relacionadas a atividades humanas, como pesca e ancoragem.
Entre os principais riscos estão:
- âncoras de embarcações;
- atividade pesqueira;
- obras marítimas;
- movimentação do leito oceânico;
- terremotos e outros fenômenos naturais;
- envelhecimento da infraestrutura;
- falhas técnicas;
- ações deliberadas de sabotagem.
Como um cabo rompido é consertado?
Após a identificação aproximada da falha, um navio especializado é enviado para o local.
O trecho danificado precisa ser localizado, recuperado do fundo do mar e levado até a embarcação. A equipe remove a parte defeituosa, instala uma nova seção e testa a conexão antes de devolver o cabo ao oceano.
O processo pode ser dificultado por profundidade, condições meteorológicas, distância até o local, disponibilidade de navios e autorizações necessárias para atuar em determinadas águas.
A UIT apontou em seu relatório de 2026 que o aumento do tempo necessário para reparos é um dos desafios atuais de resiliência da infraestrutura.
Por que um cabo submarino virou questão de segurança nacional?
Porque praticamente toda a economia digital moderna depende de conectividade.
Uma interrupção relevante pode afetar:
- bancos e pagamentos;
- serviços em nuvem;
- empresas multinacionais;
- governos;
- plataformas digitais;
- hospitais e serviços públicos conectados;
- comércio internacional;
- data centers;
- comunicações pessoais.
A Anatel classifica os cabos submarinos dentro da discussão sobre infraestruturas críticas de telecomunicações e acompanha aspectos de segurança física e cibernética.
Anatel está revendo as regras dos cabos em 2026
A relevância estratégica ganhou uma resposta regulatória específica neste ano.
Em fevereiro de 2026, a Anatel incluiu em sua Agenda Regulatória 2025-2026 um projeto de consolidação e atualização das regras aplicáveis aos cabos submarinos.
Em maio, abriu uma tomada de subsídios para receber informações de empresas, sociedade, academia e órgãos públicos.
A análise envolve temas como:
- segurança física;
- segurança cibernética;
- obrigações de informação;
- governança entre diferentes órgãos;
- boas práticas internacionais;
- redução dos riscos provocados pela concentração geográfica.
Em 4 de outubro de 2026, o processo ainda aparece na Agenda Regulatória da Anatel em fase de elaboração da Análise de Impacto Regulatório e da proposta. Portanto, uma nova regulamentação final ainda não deve ser tratada como concluída.
Proteção não depende apenas de reforçar fisicamente o cabo
Resiliência significa conseguir manter ou recuperar o serviço mesmo quando ocorre uma falha.
Isso envolve criar rotas alternativas, distribuir pontos de chegada, melhorar a troca de informações sobre incidentes, manter capacidade de reparo e proteger estações terrestres e sistemas de gerenciamento.
A Anatel também colocou entre suas metas de planejamento obter informações sobre medidas de proteção e segurança cibernética adotadas pelas prestadoras responsáveis por cabos submarinos e data centers.
O mundo aumentou a atenção sobre os cabos submarinos
A preocupação não é exclusiva do Brasil.
Em 2024, a UIT e o International Cable Protection Committee criaram um grupo internacional voltado especificamente à resiliência dos cabos submarinos.
Em fevereiro de 2026, governos, reguladores e empresas participaram da segunda Cúpula Internacional sobre Resiliência de Cabos Submarinos, realizada no Porto, em Portugal.
Em julho, o organismo internacional aprovou um relatório final com recomendações para aumentar a proteção dessa infraestrutura.
Entre os desafios apontados estão exposição a riscos físicos, tempo crescente para reparos, concentração geográfica e dependência excessiva de poucos sistemas em alguns países.
Uma única âncora pode derrubar a internet do Brasil?
Em condições normais, não.
O Brasil possui diversas conexões internacionais, e redes de telecomunicações são planejadas para utilizar rotas alternativas quando uma ligação deixa de funcionar.
O risco aumenta quando vários sistemas passam pela mesma região ou quando diferentes rotas possuem pontos comuns de vulnerabilidade.
É justamente essa concentração que levou a Anatel a incluir medidas de mitigação geográfica na discussão regulatória de 2026.
Por que construir mais cabos é importante?
Capacidade é apenas uma parte da resposta.
Novos cabos também podem aumentar a diversidade de rotas.
Imagine duas cidades ligadas por cinco estradas que passam pela mesma ponte. Apesar de existirem cinco trajetos no papel, a ponte continua sendo um ponto único de falha.
Com telecomunicações ocorre algo semelhante. Ter muitos cabos chegando à mesma região não produz a mesma resiliência que ter rotas fisicamente independentes.
Projetos capazes de criar novos corredores internacionais podem, portanto, servir tanto para ampliar capacidade quanto para reduzir dependência de determinados caminhos.
Cabos submarinos também são parte da disputa por data centers
Empresas de tecnologia procuram regiões com boa disponibilidade de energia, infraestrutura terrestre e conexões internacionais de grande capacidade.
Quanto menor a distância e o número de intermediários entre um data center e as principais rotas de internet, melhores podem ser as condições para determinados serviços de baixa latência.
Por isso, cabos submarinos passaram a ser discutidos junto com data centers, computação em nuvem e inteligência artificial nas estratégias nacionais de infraestrutura digital.
O Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações 2025-2029 da Anatel incorporou estudos sobre cabos submarinos, data centers e computação em nuvem dentro da discussão de segurança, resiliência e soberania da infraestrutura brasileira.
A internet mundial depende de uma infraestrutura que quase ninguém vê
O usuário normalmente percebe a internet apenas pelo celular, roteador ou antena da operadora. Atrás dessa conexão existe uma cadeia internacional de fibras terrestres, data centers, pontos de troca de tráfego e cabos instalados a milhares de metros de profundidade.
É essa infraestrutura física, e não uma rede puramente "no ar", que permite que arquivos, vídeos, aplicações em nuvem e serviços financeiros atravessem oceanos em frações de segundo.
O avanço de novos projetos no Brasil e a revisão regulatória aberta pela Anatel em 2026 mostram que os cabos submarinos deixaram de ser apenas assunto técnico de operadoras. Eles passaram a ocupar espaço nas discussões sobre segurança, investimentos, data centers e capacidade do país de permanecer conectado ao restante do mundo.
Perguntas frequentes
Quanto da internet mundial passa por cabos submarinos?
A União Internacional de Telecomunicações informa que mais de 99% dos fluxos internacionais de dados são transportados por cabos submarinos de telecomunicações.
A internet internacional não passa por satélite?
Satélites são importantes para diversas aplicações e áreas remotas, mas não transportam a maior parte do tráfego internacional de dados. Essa função é desempenhada principalmente por cabos de fibra óptica instalados no fundo do mar.
Onde chegam os cabos submarinos no Brasil?
Existem diferentes pontos de aterragem ao longo da costa. Em 2026, a Anatel destacou especialmente a concentração de infraestrutura em Fortaleza, Rio de Janeiro, Praia Grande e Santos ao discutir riscos e resiliência.
O Brasil tem cabo direto para a Europa?
Sim. O Ministério das Comunicações cita uma estrutura entre Fortaleza e Sines, em Portugal. Novos projetos também buscam ampliar e diversificar as conexões internacionais.
O que mais rompe cabos submarinos?
Atividades humanas são responsáveis por grande parte das falhas. Dados publicados pela UIT apontam pesca e ancoragem entre as causas predominantes, além de existirem riscos naturais, técnicos e deliberados.
Um cabo rompido deixa o Brasil sem internet?
Normalmente não. O tráfego pode ser redirecionado por outras rotas quando há capacidade disponível. O impacto depende da quantidade de cabos afetados, da região e da redundância existente.
Como um cabo submarino é reparado?
Navios especializados localizam e recuperam o trecho danificado, removem a seção defeituosa, conectam uma nova parte, testam a transmissão e devolvem o cabo ao fundo do mar.
A Anatel está criando novas regras para cabos submarinos?
A agência abriu em 2026 um processo para consolidar e atualizar as regras. Em 4 de outubro, a iniciativa ainda estava na fase de elaboração da Análise de Impacto Regulatório e da proposta, portanto não havia nova regulamentação final concluída.
Fontes consultadas
- União Internacional de Telecomunicações — Submarine Cable Resilience
- União Internacional de Telecomunicações — Global Connectivity Report 2025
- UIT — Relatório internacional sobre resiliência de cabos submarinos aprovado em julho de 2026
- UIT — Cúpula Internacional sobre Resiliência de Cabos Submarinos 2026
- Anatel — Cabos submarinos e infraestrutura brasileira de telecomunicações
- Anatel — Tomada de subsídios para atualização das regras de cabos submarinos em 2026
- Anatel — Agenda Regulatória 2025-2026, item 40: consolidação e atualização das regras de cabos submarinos
- Anatel — Participação brasileira na Cúpula Internacional de Resiliência de Cabos Submarinos
- Ministério das Comunicações — Projeto amplia ligação entre Brasil, Guiana Francesa e Europa
- Ministério das Comunicações — Projeto Elypsis de conexão entre Brasil e Estados Unidos
- Anatel — Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações 2025-2029
- Wikimedia Commons — Ile de Batz cable-laying ship, fotografia de Korrigan, CC BY-SA 2.0 FR
- Wikimedia Commons — Corte de cabo submarino de telecomunicações, Paconi/Mysid, CC BY-SA 4.0
Nota editorial: matéria verificada em 4 de outubro de 2026 com base em informações da União Internacional de Telecomunicações, Anatel e Ministério das Comunicações. A UIT utiliza a referência de mais de 99% para os fluxos internacionais de dados, enquanto uma página histórica da Anatel menciona mais de 90% da transmissão entre países e continentes e uma comunicação regulatória da agência de 2026 cita concentração de 99% do tráfego de dados do país nessa infraestrutura. Projetos de novos cabos citados no texto possuem diferentes estágios de implantação e podem sofrer alterações de cronograma.
Nota sobre as imagens: as imagens são ilustrativas e não registram os projetos brasileiros citados na matéria. A fotografia principal mostra o navio de cabos Ile de Batz e está licenciada sob CC BY-SA 2.0 França. O diagrama técnico do cabo está disponível sob CC BY-SA 4.0.